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segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Criaturas da Floresta

 Andivari iluminou o solo com sua tocha procurando por pegadas. Olhou ao redor e fez sinal com as mãos para que os homens esperassem sua avaliação do terreno. O chão gramado dificultava o rastreio de pegadas naquela parte, mas um arbusto com um galho quebrado chamou sua atenção. Por aqui. - Sinalizou Andivari que foi seguido por Vladislav e os demais homens. 

Aquela altura os homens já haviam parado de gritar o nome do perdido Adriel. A floresta ao redor era densa e escura fazendo todos se desencorajarem a gritar alto pelo nome do rapaz. Andivari achou o silêncio um tanto melhor pois facilitaria a percepção de algum barulho vindo da escuridão. Logo todos estavam caminhando próximos. Os que estavam mais afastados começaram a se reagrupar.  Sinais de preocupação  com a distância adentrada na floresta começava a ficar visível nos olhos da maioria. Todas as tochas próximas formavam uma bolha luminosa dentro da floresta, afastando possíveis predadores mas também indicando a localização de todos. Ciente da situação, Vladislav apagou sua tocha e afastou propositalmente do grupo. Com a espada riste em punho agora ele caminhava em silêncio absoluto. Com olhos atentos ao seu redor e aos homens adiante. 

Algum tempo depois Andivari fez um sinal e todos pararam como se tivessem sido congelados. Andivari apontou para um aclive no terreno e no alto dele todos puderam ver uma pequena tenda montada ao lado de uma árvore.  Junto a tenda havia um pequeno caldeirão suspenso em uma fogueira com algum ensopado ainda fervilhando em seu interior. Encostado na árvore estava o alaúde de Adriel. 

Andivari pediu silêncio ao se aproximarem da tenda. Logo todos viram abismados uma linda jovem que envolvia o corpo de Adriel em um abraço intenso e apaixonado. Contudo a paixão partia da jovem. Pois Adriel parecia estar completamente rendido aos beijos da moça. Ela possuía cabelos dourados e uma pele branca que emitia um brilho próprio. As orelhas levemente pontudas eram adornadas com brincos brilhantes. Suas vestimentas quase não escondiam suas partes íntimas. Pareciam feitas de um tecido leve e fino que não parecia ser adequado ao ambiente frio. Apesar disso, a jovem não demonstrava nenhuma manifestação de sentir frio exceto por seus seios que despontavam com mamilos rijos para fora da sua vestimenta.

Antes que Andivari pudesse intervir, um dos homens deu um passo adiante esbravejando:

Adriel, seu filho de um cão. Estamos todos aqui preocupados contigo e você se engraçando com essa meretriz. Ao perceber a presença de todos a moça soltou Adriel e em um movimento rápido se colocou de pé afastando para trás com velocidade descomunal e se mesclando nas folhagens de um arbusto. Seus olhos brilhavam como duas velas acesas na escuridão. Por um momento todos puderam ver o olhar de desprezo da jovem até que ela desapareceu no arbusto. 

O homem que gritou por Adriel logo se aproximou dele, mas ao tocar seu corpo e olhar para seu rosto o homem deu um sobressalto com terror nos olhos. _ Pelos deuses. O que aconteceu com você Adriel?

Logo todos puderam ver espantados a situação de Adriel. Apesar de possuir um sorriso de satisfação e alegria no rosto, Adriel havia envelhecido. Vários anos. Como se toda sua juventude tivesse sido sugada de sua vida. Ele estava vivo, mas seu corpo não tinha forças para se firmar. O cheiro horrível demonstrava que Adriel tinha defecado nas próprias vestes. Seus cabelos estavam ralos e esbranquiçados. Sua pele estava toda enrugada. Adriel estava quase irreconhecível.  

Os homens começaram ficar apavorados ao perceberem a gravidade da situação.

Aquela jovem era uma maldição da floresta. Vamos correr. Ela pode voltar e nos amaldiçoar também.

Concordo que temos que sair daqui rapidamente. -Afirmou Andvari. _ Mas preciso que me ajudem a carregar Adriel. 

Todos se entreolharam como se esperassem que alguém tomasse a iniciativa. Vendo que todos ao redor estavam com nojo do agora velho e sujo de excrementos Adriel, Andivari o ergueu sobre os ombros e disse aos homens:_ Fiquem atentos ao nosso redor e vamos sair daqui o mais rápido que pudermos.

 O corpo do rapaz agora estava leve como uma pena. O cheiro de fezes incomodava a todos ao redor fazendo com que os homens ficassem a certa distância de Andivari que carregava Adriel sem demonstrar qualquer nojo. Andivari não culpava nenhum daqueles homens. A maioria eram fazendeiros ou comerciantes. Nenhum deles provavelmente havia participado de alguma batalha. Nas batalhas que Andivari havia lutado, o cheiro de fezes e sangue era o cheiro que impregnava o ar durante todo o tempo. Esse é o cheiro da morte. Sangue e fezes. Era triste pensar que o jovem Adriel, a algumas horas atrás estava cheio de vida e agora mal conseguia respirar.  Toda a sua juventude havia sido roubada por uma criatura da floresta que apesar de bela, era mortal. 

Um murmúrio entre os homens começou inevitavelmente. Todos apertavam os passos ansiosos para saírem daquele lugar. Andivari carregava o frágil corpo de Adriel nos braços. O jovem, agora velho, parecia dormir em um sono profundo. Uma baba escorria do canto de sua boca e melava o braço de Andivari. Mas para quem já havia se sujado com as próprias secreções do indivíduo em seus braços,aquela baba era a menor de suas preocupações. Na verdade, apesar de não admitir aos outros, Andivari também estava preocupado. O olhar da criatura ao ser surpreendida pelos homens não foi nada agradável. 

Caminharam por alguns minutos e quando subiam uma pequena colina que outrora haviam descido todos se depararam com o vulto de um homem no alto da colina. Era um vulto esguio e alto. Provavelmente uns dois metros e meio de altura. Não dava pra ver o rosto mas todos sentiam um temor inexplicável  que emanava daquele ser.

Todos pararam de imediato. Seguraram suas armas firmemente nas mãos. Foices, machados de lenhador e algumas lanças de pau. Apenas Vladislav e Andivari possuíam espadas de aço, mas Andivari estava segurando o velho Adriel nos braços. Um dos homens adiantou se do grupo com um pequeno facão em riste e bradou:

_ Quem és tú forasteiro? Que se interpõe entre nosso grupo e nosso caminho?

A resposta veio na forma de uma voz grave e metalizada. Falava um idioma estranho e não parecia se dirigir a nenhum dos homens ali presente..

Logo uma voz feminina respondeu da parte de trás do grupo. A uma distância de mais ou menos dez metros estava a criatura seminua que havia sugado a juventude de Adriel. Os dois seres conversavam entre si, ignorando completamente os amedrontados homens que estavam no meio do círculo iluminado por suas tochas. Os homens apegaram-se à luz como se ela fosse impedir que as duas criaturas pudessem adentrar o círculo.  

Fiquem de costas um para o outro.-Ordenou Andivari. Formem um círculo e se mantenham atentos a qualquer movimento. Andivari procurou por Vladislav mas o jovem não estava no círculo. -Provavelmente se embrenhou na floresta para atacar o inimigo desprevenido. Espero que ele não cometa nenhuma tolice. Não sabemos o que estamos enfrentando.

À medida que o vulto humanoide se aproximava da luz suas feições se tornavam visíveis. Agora era nítido que apesar de esguio, o corpo possuía uma espécie de armadura negra com algumas gemas vermelhas e outras amarelas cravejadas por partes aleatórias. O rosto era um branco pálido e a textura da pele parecia a de um réptil. Não possuía nariz. Apenas uma leve elevação com possuía dois pequenos furos que poderiam ser suas narinas. Tal fato apenas destacava a boca desprovida de lábios que deixavam a mostra uma arcada dentária totalmente completa com dentes pontiagudos.

Tal visão espalhou o pânico entre os homens. Gritavam apavorados.

_Iévine salve nos. Nós te rogamos a ti deusa da vida. 

Criaturas de Bël . Vamos fugir daqui. 

Estão em menor número. Somos maioria. Vamos atacar homens. 

Logo o sentimento de medo e ódio se espalhava pelo grupo. Alguns queriam atacar, outros fugir. Andivari colocou o corpo decrépito de Adriel no chão por um momento e com a espada firmemente empunhada ordenou aos homens.

Permaneçam em suas posições cães. -Andvari falava agora como um capitão de guerra. Sua voz ecoou firme no ouvido de todos e os homens pararam prontos a obedecer. Mas aqueles pobres homens não eram soldados. E a voz firme de Andivari inspirou coragem a um dos mais jovens que saiu do círculo em direção a criatura. Com uma foice em sua mão ele gritava disfarçando seu medo com ódio.

A criatura parecia se deleitar com a situação. Retirou do peito uma das pedras vermelhas que estava encravada na armadura e a jogou em direção ao jovem. A pedra de formato hexagonal acertou em cheio o peito do jovem e de alguma forma cravou queimando tecidos e adentrando na pele. O que se seguiu foi uma cena terrível. O jovem paralisou com o corpo trêmulo e riste. Sua foice caiu e ele ficou imóvel enquanto a criatura se aproximava de seu corpo. Olhava para o alto em direção ao rosto da criatura que se aproximava agora com um sorriso maléfico visível na face.

Com apenas os movimentos das mãos, a criatura parecia controlar o corpo do jovem. Todos viram atônitos. O jovem tremia. Seus olhos lacrimejavam sangue e sua boca espumava, mas ainda assim parecia não conseguir gritar. 

 A criatura fêmea que estava do outro lado correu como se fosse uma aranha rastejante e se pôs ao lado da criatura maior. Agora ela demonstrava suas verdadeiras feições. Apesar de ser menor, uma estatura de aproximadamente um metro e setenta, ela não tinha mais nenhuma semelhança humana. A pele branca e escamosa era agora visível. Os lábios outrora sedutores eram agora presas afiadas. E os seios da criatura em vez dos bicos rijos apresentavam algo semelhante a ventosas hediondas. 

A criatura maior segurou o corpo do jovem pela nuca e sua luva, garras finas como agulhas adentraram a pele do jovem. Com uma lâmina afiada a criatura menor, que parecia ser a fêmea da espécie, começou a dilacerar o jovem que continuava imóvel, apenas tremendo de agonia. Ela arrancava lascas de pele do jovem e devorava lambendo as feridas com uma língua bifurcada. A criatura que segurava o jovem pela nuca parecia estar em êxtase. Suas garras apertavam o pescoço do jovem que tremia. As agulhas pareciam adentrar até a coluna vertebral do jovem que era dilacerado pela criatura fêmea de forma cirúrgica e ritualística. 

Os homens estavam paralisados. Muitos literalmente se molhavam nas calças. Choravam e deixavam suas armas caírem. 

Diante de tanta agonia sofrida pelo jovem, Andvari reuniu coragem para avançar. Mas percebendo sua atitude e com um olhar de desaprovação a criatura tirou da armadura outra pedra, uma amarela desta vez e a lançou no chão. Quase que imediatamente sua espada foi puxada de sua mão por uma força invisível e caiu em cima da pedra amarela. Logo as outras armas de metal se arrastaram até a pedra. Inclusive a espada de Vladislav que estava embrenhando na floresta passou sendo arrastada revelando o jovem guerreiro que acabou por soltar a espada quando ela o puxou para o campo de visão. 

Agora a criatura voltou a sua atenção ao jovem. Sua companheira dançava enquanto dilacerava o jovem que já não possuía mais quase nenhuma parte do corpo coberta por pele. Com os olhos totalmente negros as criaturas pareciam regozijar. Começaram ambas a entoar um mantra, um canto macabro que paralisava todas ao redor. 

_“Arkhanius orakna ssiamariusha moabatuza Arkhanius orakna”

Por fim, a criatura permitiu o jovem a gritar. Seu grito ecoou por toda a floresta. Gritos e gritos de desespero e dor. Alguns tentaram correr. Pediam e imploravam ajuda à deusa. Mas todos estavam imóveis. Não conseguiam se mover. Se sentiam abandonados. Alguns queriam adorar as criaturas. Juravam lealdade se fossem poupados. Amaldiçoaram os deuses e proclamaram as duas criaturas novos deuses. 

Por fim a criatura fêmea abriu um corte no peito do jovem e enfiando a mão dentro arrancou o coração pulsante para fora e o mostrou ao jovem agoniado. Da mesma forma que não era permitido ao jovem se mover, também não era permitido ao seu corpo desmaiar ou morrer ainda. Seu cérebro processava todas aquelas imagens. A agonia era imensa. A criatura maior que o segurava pela nuca estava em um êxtase sexual. Por fim, o corpo do jovem não aguentou e a criatura voltou a si, deixando o corpo do jovem cair. 


As criaturas falavam entre si. A fêmea possuía um tom maléfico e obsceno na voz. Agora com movimentos dançantes, olhou em direção a Vladislav com a língua sibilando. O jovem guerreiro entrou em pânico. Tentou correr em direção a espada mas não conseguia. Seus pés estavam paralisados. Vladislav estava com medo. Medo da morte. Ele sempre se imaginou enfrentando a morte em combate. Mas ele estava desarmado. Seria simplesmente abatido como um animal qualquer. E era isso que todos eram para aquelas criaturas da floresta. Animais esperando o abate.

Por fim, um som de cavalos a galope e homens gritando ecoou na floresta. A criatura recuou de Vladislav e falou algo a outra criatura que recolheu a pedra vermelha do corpo do jovem e a amarela do chão. A fêmea parecia querer ficar mas a outra criatura decidiu partir. Antes de seguir o macho, a criatura fêmea lançou um olhar de ódio para Vladislav. 

Minutos após as duas criaturas sumirem na floresta, os soldados Águias Rubras chegaram. Junto a eles estavam o Príncipe Gamblior e Verbena. Os homens estavam em prantos. Alguns finalmente desmaiavam e outros gritavam aos soldados por ajuda. O príncipe e Verbena estavam assustados e confusos. Os soldados ao verem o corpo do jovem dilacerado no chão encheram- se de fúria e gritavam: _ Quem fez isso ao jovem? Onde estão? Para onde foram? Vamos caçá-los e trazê-los à fúria de nossas espadas.

_ Não. Pelos deuses. Não vão atrás deles. - Disse Andivari com a voz engasgada. 

_Andi? - Exclamou o príncipe Gamblior. Pensei que o encontraria apenas nas festividades de Stavianath. O que aconteceu aqui? Aquele é o corpo do jovem desaparecido?

_ Não. O “jovem” é esse velho aqui no chão. Uma longa história. Mas ordene seus homens a se agruparem e ajudarem os cidadãos. Estão todos desesperados. E em hipótese alguma permita que seus homens sigam as criaturas.

Gamblior queria saber que criaturas eram essas. Estava confuso mas conhecia Andivari desde pequeno e sabia que aquele homem era um guerreiro prudente. Então deu ordem aos seus homens para ajudarem os cidadãos lamuriosos a retornarem ao acampamento.

Vladislav estava junto a Verbena que o abraçava. Ela olhou assustada para o velho no chão quando Vladislav disse algo a ela. Levou a mão à boca enquanto seus olhos lacrimejaram simultaneamente. 

Andivari apanhou sua espada do chão e ficou a observando por um longo momento. Seus pensamentos eram incertos. Gamblior nunca o havia visto naquele estado antes.

Aos poucos os homens foram se acalmando e com a ajuda dos soldados Águias Rubras todos foram escoltados para o acampamento. Porém antes de chegarem decidiram enterrar o corpo do jovem morto. Nenhum familiar deveria ver o corpo do ente naquele estado. Concordaram em dizer aos familiares que foram dois ursos que os atacaram e que graças ao seu sacrifício eles conseguiram escapar. Alguns soldados acharam uma besteira mentir sobre isso, mas Gamblior ordenou o voto de silêncio de todos os soldados. Ao velho Malak foi dito que o filho caíra no covil de uma bruxa e sofrerá uma maldição irreversível. O velho estava indignado com a situação. Prometera gastar toda sua fortuna para que revertesse a maldição. Alguns diziam que o agora velho Adriel teve sorte pois poderia ter tido o pior destino.

  _ Pelo menos ele não foi devorado por “ursos”. Zombou um dos soldados que logo levou uma bofetada. Quando o soldado se levantou para revidar viu que quem o esbofeteou foi o próprio capitão Gawdren.

_ Cale sua boca seu rato. Você não viu o estado de todos esses homens? Não viu como os encontramos assustados e chorosos? Até o próprio Andivari estava assustado. E acredite seu verme. Aquele homem não se assustaria facilmente. Seja lá o que for que tenha acontecido, agradeça aos deuses por não ter participado. E tenha mais respeito.

O soldado ficou em silêncio enquanto o capitão se dirigiu ao velho senhor. 

_ Meu senhor, o que aconteceu ao seu filho foi uma fatalidade. Não creio que deva gastar sua fortuna com pessoas que provavelmente irão se aproveitar da situação em benefício próprio. Fique com seu filho o máximo que puder…

_ Ele era tão jovem. Tão cheio de vida. Ainda ontem ouvimos sua voz estridente ecoando  pelas tendas  -resmungava o velho Malak. Agora está tão velho. Mais velho do que eu. Por que deuses? Por que?

Os deuses talvez sejam imparciais. Existem maldades nesse planeta que desconhecemos. Mas apegue se a sua fé, meu velho senhor. Não há maldade grande o suficiente que não haja também bondade equivalente para se contrapor.  

Enquanto os dois conversavam, o “velho” Adriel apenas observava com a vista embaçada pela idade. Em seus pensamentos a sua amada Verbena cuidava dele. Afagava seus cabelos e o acariciava em suas partes íntimas. Em seus pensamentos ele ainda era jovem e viril. Em algum lugar da sua mente ele sabia que aquilo era um sonho. Mas Adriel não queria acordar. A realidade era pra ele insuportável para ser vivida.  


sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Coração partido

 Os três cavalgaram por, pelo menos, duas horas sozinhos até conseguirem acompanhar a grande caravana de viajantes, comerciantes e cavaleiros andantes que seguiam o séquito real. Logo os barulhos de pessoas conversando e carruagens sendo puxadas por cavalos e búfalos de carga tornaram-se constantes aos ouvidos. 

Verbena demonstrava certa tristeza no olhar. Principalmente quando olhava para trás e avistava as montanhas onde crescera e onde havia deixado seu pai. 


“_ Minha filha, vá com Andivari. Haverá uma grande festa em Stavianath e eu quero que você divirta-se. Não precisa passar sua mocidade cuidando de um velho moribundo. Meus dois aprendizes cuidarão bem de mim.“

E era verdade. Os aprendizes de Aroc já exerciam a profissão de ferreiro. Graças aos ensinamentos de Aroc eles sempre foram reconhecidos como excelentes ferreiros. Nunca deixaram de ser gratos a Aroc por seus ensinamentos e com os dias de Aroc findando, juraram cuidar do velho até que a morte lhe abraçasse. Sabiam que seriam dispensados assim que Verbena partisse, pois assim era o desejo de Aroc. Mas prometeram a Verbena permanecer por perto até o último suspiro do velho. Sim, todos sabiam que Aroc estava no fim. 

Ele é a única família que tenho agora. Não devia tê-lo deixado. –Pensava a jovem de cabelos dourados. 

Andivari observava a moça que escondia o corpo debaixo de um casaco de peles de urso. Seu rosto era rude e belo ao mesmo tempo. As sobrancelhas cerradas davam-lhe um aspecto raivoso, mas os lábios vermelhos e bochechas róseas junto com o olhar esmeralda davam-lhe fortes toques de feminilidade. Ela trazia a lâmina de seu pai junto à cintura presa por um cinto de couro. Atrás dela, com os cabelos loiros caindo até abaixo da nuca e a barba recém-feita, cavalgava Vladislav com o olhar perdido no horizonte.

_Dois sonhadores. –Pensava Andivari.

Ao entardecer, a caravana parou para descansarem e darem alimento aos viajantes. A guarda real do príncipe erguia uma parede de estacas para separar a comitiva do príncipe dos demais seguidores. Quem atravessasse a parede era severamente punido. Muitos viajantes ficaram olhando o príncipe e seus convidados que banqueteavam até tarde da noite na esperança de serem convidados para comerem junto com o príncipe. 

Algumas crianças gritavam o nome de Gamblior hora lhe pedindo alimento, hora lhe implorando para serem escudeiros de algum cavaleiro famoso que estivesse em sua companhia. Também havia mulheres que gritavam seu nome. Porém seus gritos era como gemidos de amor e por vezes acompanhados de palavras sedutoras e de cunho erótico. Algumas deixavam os seios amostra. O que alegrava os soldados de guarda na parede de estacas.

Apesar de alguns viajantes ficarem assistindo as festividades do príncipe Gamblior de longe, muitos preferiam fazerem suas próprias festividades e beberem até se sentirem como se fossem príncipes e reis. Princesas e rainhas. Andivari pagou algumas moedas de prata para um ancião de cabelos grisalhos e olhos fundos no rosto e puderam juntarem se a ele e seus filhos e filhas que banqueteavam um pernil assado acompanhado com cerveja vinda da longínqua Cananor. Um dos filhos do senhor era um aspirante a bardo, mas tocava tão mal o seu alaúde e possuía uma voz fanhosa que fazia de suas melodias um verdadeiro motivo de risadas de todos do grupo. Foi com esses companheiros de viagem que os três passaram a noite comendo e bebendo até que o sono chegasse. Apesar de existirem vigias das caravanas, Vladislav e Andivari combinaram as horas que ficariam a postos de guarda. No dia seguinte, Verbena indignou-se por ter sido deixada de fora da vigia e exigiu uma parte do turno para ela mesma manter-se de guarda.

Os dias transcorreram iguais. O ancião e seus familiares logo se afeiçoaram a Andvari e seus companheiros. Malak era seu nome. Havia criado uma pequena fortuna nas cidades de Hellins mas os constantes aumentos dos tributos o encorajaram a tentar a sorte em Stavianath. A viagem do príncipe era o momento perfeito para isso pois o caminho estaria sendo vigiado pela própria guarda real. Não só Malak como vários comerciantes estavam acompanhando o cortejo real. 

O filho “bardo” de Malak apaixonou-se por Verbena. Passava horas a fio tentando compor uma canção que agradasse a moça. Todavia a voz tediosa e os refrões nada criativos do rapaz apenas deixavam Verbena não só constrangida como enraivecida. O auge da ira de Verbena culminou quando ela estava preparando o desjejum em companhia das irmãs do rapaz e outras mulheres do grupo e o rapaz apareceu com seu alaúde cantando o seu amor em alto e bom tom. 

-Saia daqui! - Gritou Verbena lançando uma tigela na cabeça do rapaz. - Já estou cheia dessas músicas chorosas e sofríveis. Dane-se seu amor. Não o quero. Agora saia da minha frente.

O rapaz saiu assustado em direção oposta, cabisbaixo e envergonhado com todos ao seu redor rindo e debochando dele. Durante o restante do dia ninguém mais viu o rapaz dar as caras. Foi ao cair da noite que Malak, o pai do rapaz, manifestou sua preocupação 

_Já era pra ele ter voltado. -resmungava o velho. Ele nunca perde a refeição noturna. Estão todos aqui. Menos ele. E essas florestas ao redor são perigosas… 

Não se preocupe. Eu vou procurá-lo pessoalmente. -Disse Andivari levantando do chão onde estava jogando cartas com Vladislav em um salto. 

Eu também irei. Logo escurecerá e os olhos de Iévine não estão nos agraciando hoje. -Disse Vladislav se referindo às duas luas que em determinados períodos iluminavam os céus escuros. Uma possuía um brilho azulado e outra um brilho prateado, mas nessa noite nenhuma delas apareceria no céu escuro. 

_ Muito bem. Vamos reunir alguns homens para nos ajudar na busca. Verbena, prepare tochas para cada um de nós. Peça ajuda às outras moças.

Logo reuniram quinze bons homens dispostos a ajudarem. Andivari os dividiu em cinco grupos de três homens. 

Vamos procurar pela mata. Então lembrem- se de manterem as tochas acesas tanto para iluminar o caminho quanto para afastar possíveis predadores. 

Andivari distribuía as tochas que Verbena e as duas criadas trouxeram. O ambiente ficou iluminado por causa das tochas por algum tempo, mas à medida que os homens foram caminhando mata adentro e os grupos se distanciaram uns dos outros, o lugar voltou a ficar escuro e silencioso. 

As outras caravanas já estavam distantes, o que fazia o farfalhar das folhas junto com as lamúrias do velho Malak se tornarem assustadoramente auditivos. Verbena se sentia culpada pela situação. Mesmo que ninguém dissesse nada, ela sentia os olhares condenadores dos familiares do rapaz. Ao longe na floresta os gritos dos homens chamando o rapaz ecoavam. Foi só nesse momento que o nome fixou na mente de Verbena. " Adriel". O nome ecoava na floresta e na cabeça de Verbena. 


terça-feira, 3 de outubro de 2023

O Início de uma Jornada

 As trevas ainda dominavam o horizonte quando Andivari e Vladislav acordaram. Depois de um rápido desjejum, selaram os cavalos e tomaram rumo ao alto da colina. Subiam sem pressa, ainda meio sonolentos. Quando estavam no meio do caminho, surgiram os primeiros raios avermelhados de Álax, a estrela que ilumina Eralfa, trazendo o calor de um novo dia. O ar estava umidificado devido à chuva do dia anterior dando um prazer agradável a Andivari quando ele enchia os pulmões de ar. Atrás dele vinha Vladislav, com o olhar sombrio mesmo diante de um dia que prometia ser agradável. Andivari demonstrava ter certa preocupação com o amigo. “_ Já faz tantos anos…” - Pensava Andivari.” _ Qualquer homem já teria superado sua perda, seja ela qual fosse.”

 Alheio aos pensamentos de Andivari, Vladislav cavalgava em silêncio. Nem mesmo a luz do dia afastava dele seu semblante sombrio. " Tenho que tentar…” Pensava consigo. “_Se a morte anda sempre ao meu lado, devo buscar meus inimigos. Assim levarei a morte até eles”.

_ Alto lá… Quem são vocês? Uma voz feminina, mas potente cortou o ar tirando Vladislav de seu devaneio filosófico. A moça de aparência bela, mas rude, tinha em suas mãos uma espada recentemente afiada e sobre seu corpo um vestido feito de pele de carneiro cobria-lhe as curvas femininas.

Viemos ver Aroc, o ferreiro. - Disse Andivari observando a moça que acreditava ser a pequena garotinha que conhecera no passado.

Meu pai não exerce mais a profissão. Se desejarem os serviços completos de um bom ferreiro eu sugiro irem até a capital. Mas caso seja apenas um pequeno reparo, eu posso fazer por um preço justo, claro.

Na verdade, não estamos atrás dos serviços de um ferreiro. Eu vim a pedido do próprio Aroc. Você deve ser Verbena, estou correto? Sou Andivari e este comigo é Vladislav.

A moça olhou os dois homens com um olhar cético por alguns instantes e então disse:

_Sim, sou Verbena, filha de Aroc. Perdoem-me, mas somente agora reconheci o seu amigo. Ele mora colina abaixo, não é mesmo? Lembrei-me dele. Ele foi uns dos que vieram ajudar meu pai no último ataque que sofremos. - A tristeza pareceu abater sobre a moça por um momento. 

Na ocasião meu irmão faleceu, mas sou grata por todos que vieram nos socorrer.

Lamento por sua perda Verbena. Disse Andivari se compadecendo da jovem.

_ Pois eu tenho lamentado aqueles infelizes não aparecerem aqui de novo. Agora estou armada com a antiga espada de meu pai e tenho treinado todos os dias. Não sou mais a garotinha indefesa e em apuros que eles encontraram naquele dia.

A jovem possuía um ódio nas palavras e uma determinação nos movimentos que brandia com a espada. Ainda que desajeitados. Andivari começava agora a entender quem Aroc gostaria que ele treinasse.

Vamos garota, nos leve até seu pai. - Disse Andivari com um sorriso no rosto. _ Aroc terá muito que me explicar, a sim.

Álax, o luminoso astro que aquecia os dias, já estava no centro do céu quando eles chegaram à cabana no alto da colina. Era uma cabana antiga. Feita com grandes toras de carvalho e o teto coberto com placas de metal. Uma parte onde ficava a chaminé havia sido feita com pedras sobrepostas umas às outras. Quando encontraram Aroc, ele estava acamado. Com uma barba enorme que lhe caía até o umbigo. Seus olhos semicerrados estavam com marcas de cansaço e dor. Dois aprendizes tentaram ajudá-lo a se sentar na beira da cama. Andivari lamentou em seu íntimo ver o amigo naquela situação.

_Andi… vari, seu filho duma…cof… cof… ratazan…a …cof! Exclamou Aroc forçando a voz em meio a tosses e palavras. Quando Andivari percebeu que o velho se esforçava para se erguer, correu até a cama onde Aroc estava.

_ Não se esforce por minha causa cão de guerra. É muito bom revê-lo. Disse Andivari abraçando o amigo.

Cuidado com. Cof…cof…minhas costas filho. Já não sou mais o mesmo… cof…cof…! Anos de dedicação ao reino e eis minha recompensa. Tenho que dormir em minhas próprias fezes…

Só quando o seu orgulho fala mais alto pai. Resmungou Verbena.

_ Você não entende minha querida…cof …cof… Já não basta o tormento das dores, tenho que ficar vendo minha própria filhinha tendo…cof…que…cof…me limpar? A angústia estava estampada no olhar do velho. _ Prepare algo para nós comermos minha querida. Deixe-me falar com esse velho amigo por um momento. Verbena fez uma reverência aos três e saiu às pressas em direção à cozinha.

Ela é uma boa garota. Os deuses bem sabem. E quem é esse jovem? Cof..cof…

_ Esse é Vladislav, meu aprendiz.

_Que os deuses te guie no caminho da justiça meu jovem… cof…cof… pois estás com o melhor professor. Lembro-me de você… você esteve aqui quando…cof…cof…cof …Argh… Maldita tosse.

_ Não remexa no passado meu senhor… Nem sempre ele nos traz boas recordações. O que passou, deveras já é passado. - Disse Vladislav.

_Sim. Mas às vezes o passado nos atormenta. Acredito que estou pagando por todas as vidas que tirei no campo de batalha.

Lutamos por uma causa justa meu amigo. Não se condene pelos seus leais anos de serviço ao rei. - Disse Andivari.

_Iévine não é uma deusa adepta da justiça. Ela é a deusa da vida. Quando… cof…cof… Tiramos alguma vida ela afasta de nós seus…cof…cof…olhos. Deixando-nos à mercê da ira de Bël-Teâncum. Lamuriou o velho Aroc. Mas, deixemos de lado a conversa vã. Quero que você cuide da minha menina Andivari. Ensine ela a lutar. Cometi o erro de acreditar que…cof…somente os homens deviam se preparar para o combate, mas as pragas de Bël não escolhem suas vítimas pelo sexo. Leve-a contigo em tuas andanças. Eu em breve morrerei. Não quero minha… cof…cof…garotinha ao meu lado enquanto irei me definhar aos poucos. Ela sabe cozinhar bem…

_Mas, quem… - Andivari começou a pronunciar as palavras, mas parou quando viu o olhar desesperado e aflito do velho.

_Por favor, Andivari… Se eu pudesse recorrer a outro eu recorreria.

Tudo bem, meu amigo. Fez bem em me procurar. Só assim poderei retribuir as tantas vezes que salvou minha vida no campo de batalha. Estou mesmo indo até os festejos de Stavianath, na cerimônia de escolha do marido da princesa Kathrina e seria bom que Verbena viesse conosco. Vamos acompanhar a caravana do príncipe Gamblior.

_ Obrigado meu amigo. Muito obrigado. Verás que Verbena não é totalmente laica com a espada. Meu falecido filho costumava ensiná-la às escondidas. Graças aos deuses ele cof…cof…cof…era mais sábio que eu. Teimoso sim, porém sábio.

Naquela noite todos se alimentaram do guisado que Verbena fizera. Os dois dias que passaram foram cheios de histórias e momentos agradáveis. No dia da partida Verbena chorou ao se despedir do pai, mas estava contente, pois o pai tinha uma expressão feliz que há muito tempo ela não via. Em seu íntimo, ela sabia que o velho homem queria morrer sozinho seguindo sua antiga crença de que sozinho veio ao mundo e sozinho deveria partir. Assim um homem deveria morrer se um campo de batalha não tivesse tomado seu corpo durante a vida. 

Os três viajantes desciam a colina cavalgando três belos cavalos que os aprendizes de Aroc tinham trago. Lá embaixo podia se ver uma enorme cavalaria ao redor da carruagem real e mais atrás uma caravana enorme de viajantes e comerciantes que seguiam o séquito real.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Lembranças de um coração partido

Ao que parece encarar a  morte faz um filme passar na cabeça de todo ser vivente. Pelo menos era nisso que Verbena acreditava naquele momento. Ela começou a se lembrar da viagem que fizeram no inicio de toda essa história. De como deixou seu pai idoso no alto da colina onde moravam para seguir o agora debilitado Andivari.
Os três cavalgaram por pelo menos duas horas sozinhos até conseguirem acompanhar a grande caravana de viajantes, comerciantes e cavaleiros andantes que seguiam o séquito real. Logo os barulhos de pessoas conversando e carruagens sendo puxadas por cavalos e búfalos de carga tornaram-se constante aos ouvidos. 
Verbena demonstrava certa tristeza no olhar. Principalmente quando olhava para trás e avistava as montanhas onde crescera e onde havia deixado seu pai. 
“_ Minha filha, vá com Andivari. Haverá uma grande festa em Stavianath e eu quero que você divirta-se. Não precisa passar sua mocidade cuidando de um velho moribundo. Meus dois aprendizes cuidarão bem de mim.“
E era verdade. Os aprendizes de Aroc já exerciam a profissão de ferreiro. Graças aos ensinamentos de Aroc eles sempre foram reconhecidos como excelentes ferreiros. Nunca deixaram de serem gratos a Aroc por seus ensinamentos e com os dias de Aroc findando, juraram cuidar do velho até que a morte lhe abraçasse. Sabiam que seriam dispensados assim que Verbena partisse pois assim era o desejo de Aroc. Mas prometeram a Verbena permanecerem por perto até o último suspiro do velho. Sim, todos sabiam que Aroc estava no fim. 
_ Ele é a única família que tenho agora. Não devia tê-lo deixado. –Pensava a jovem de cabelos dourados. 
Andivari observava a moça que escondia o corpo debaixo de um casaco de peles de urso. Seu rosto era rude e belo ao mesmo tempo. As sobrancelhas cerradas dava lhe um aspecto raivoso, mas os lábios vermelhos e bochechas róseas junto com o olhar esmeralda davam lhe fortes toques de feminilidade. Ela trazia a lâmina de seu pai junto à cintura presa por um cinto de couro. Atrás dela, com os cabelos loiros caindo até abaixo da nuca e a barba recém-feita, cavalgava Vladislav com o olhar perdido no horizonte.
_Dois sonhadores. –Pensava Andivari.
Ao entardecer, a caravana parou para descansarem e darem alimento aos viajantes. A guarda real do príncipe erguia uma parede de estacas para separar a comitiva do príncipe dos demais seguidores. Quem atravessasse a parede era severamente punido. Muitos viajantes ficavam olhando o príncipe e seus convidados que banqueteavam até tarde da noite na esperança de serem convidados para comerem junto com o príncipe. 
Algumas crianças gritavam o nome de Gamblior hora lhe pedindo alimento, hora lhe implorando para serem escudeiros de algum cavaleiro famoso que estivesse em sua companhia. Também havia mulheres que gritavam seu nome. Porém seus gritos era como gemidos de amor e por vezes acompanhados de palavras sedutoras e de cunho erótico. Algumas deixavam os seios amostra. O que alegrava os soldados de guarda na parede de estacas. 
Apesar de alguns viajantes ficarem assistindo as festividades do príncipe Gamblior de longe, muitos preferiam fazerem suas próprias festividades e beberem até se sentirem como se fossem príncipes e reis. Princesas e rainhas. Andivari pagou algumas moedas de prata para um ancião de cabelos grisalhos e olhos fundos no rosto e puderam juntarem se a ele e seus filhos e filhas que banqueteavam um pernil assado acompanhado com cerveja vinda da longínqua Cananor. Um dos filhos do senhor era um aspirante a bardo, mas tocava tão mal o seu alaúde e possuía uma voz fanhosa que fazia de suas melodias um verdadeiro motivo de risadas de todos do grupo. Foi com esses companheiros de viagem que os três passaram a noite comendo e bebendo até que o sono chegasse. Apesar de haverem vigias das caravanas, Vladislav e Andivari combinaram as horas que ficariam a postos de guarda. No dia seguinte Verbena indignou-se por ter sido deixada de fora da vigia e exigiu uma parte do turno para ela mesma manter-se de guarda.
Os dias transcorreram iguais. O ancião  e seus familiares logo se afeiçoaram de Andivari e seus companheiros. Malak era seu nome. Havia criado uma pequena fortuna nas cidades de Hellins mas os constantes aumentos dos tributos o encorajaram a tentar a sorte em Stavianath. A viagem do príncipe era o momento perfeito para isso pois o caminho estaria sendo vigiado pela própria guarda real. Não só Malak como vários comerciantes estavam acompanhando o cortejo real. 
O filho "bardo" de Malak apaixonou se por Verbena. Passava horas a fio tentando compor uma canção que agradasse a  moça. Todavia a voz tediosa e os refrões nada criativos do rapaz apenas deixavam Verbena não só constrangida como enraivecida. O auge da ira de Verbena culminou quando ela estava preparando o desjejum juntamente com as irmãs do rapaz e outras  mulheres do grupo e o rapaz apareceu com seu alaúde cantando o seu amor em alto e bom tom. 
-Saia daqui! - Gritou Verbena lançando uma tigela na cabeça do rapaz. - Já estou  cheia dessas músicas chorosas e sofríveis. Dane -se seu amor. Não o quero. Agora suma da minha frente.
O rapaz saiu assustado em direção oposta cabisbaixo e envergonhado com todos ao seu redor rindo e debochando dele. Durante o restante do dia ninguém mais viu o rapaz dar as caras. Foi ao cair da noite que Malak, o pai do rapaz, manifestou sua preocupação 
_Já era pra ele ter voltado. -resmungava o velho. _ Ele nunca perde a refeição noturna. Estão todos aqui. Menos ele. E essas florestas ao redor são perigosas… 
_ Não se preocupe. Eu vou procurá-lo pessoalmente. -Disse Andivari levantando do chão onde estava jogando cartas com Vladislav em um salto. 
_Eu também irei. Logo irá escurecer e os olhos de Ievine não estão nos agraciando hoje. -Disse Vladislav se referindo às duas luas que em determinados períodos iluminavam os céus escuros. Uma possuía um brilho azulado e outra um brilho  prateado mas nessa noite nenhuma delas iria aparecer no céu escuro. 
_ Muito bem. Vamos reunir alguns homens para nos ajudar na busca. Verbena, prepare tochas para cada um de nós. Peça ajuda as outras moças. 
Logo reuniram quinze bons homens dispostos a ajudarem. Andivari os dividiu em cinco grupos de três homens. 
_ Vamos procurar pela mata. Então lembrem se de manterem as tochas acesas tanto para iluminar o caminho quanto para afastar possíveis predadores. 
Andivari distribuía as tochas que Verbena e duas criadas trouxeram. O ambiente ficou iluminado por causa das tochas por algum tempo mas à medida que os homens foram caminhando mata adentro e os grupos se distanciaram uns dos outros o lugar voltou a ficar escuro e silencioso. 

As outras caravanas já estavam distante o que fazia o farfalhar das folhas junto com as lamúrias do velho Malak se tornarem assustadoramente auditivos. Verbena se sentia culpada pela situação. Mesmo que ninguém dissesse nada ela sentia olhares condenadores dos familiares do rapaz. Ao longe na floresta os gritos dos homens chamando o rapaz ecoavam. Foi só nesse momento que o nome fixou na mente de Verbena. "_ Adriel". O nome ecoava na floresta e na cabeça de Verbena. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Através da floresta

 Verbena segurava a mão de Andivari enquanto que Vladislav afiava sua espada. Ambos estavam ao Lado de Andivari dentro da carruagem.  Junto com eles mais dois soldados ajudavam a segurar o corpo de Andivari imobilizado enquanto a carruagem cruzava o acampamento rumo ao caminho da floresta densa até Markden. Não era o caminho mais seguro, mas com certeza era o mais rápido.

A frente da carruagem quatro cavaleiros zarparam em alta velocidade como batedores para averiguarem a passagem segura da carruagem. Logo atrás vinham mais quatro cavaleiros protegendo a retaguarda. Obadian Teron permanecia ao fundo da carruagem apoiando o queixo sobre as mãos encima do cabo da espada. Seu olhar era de preocupação.

“_Ele não pode morrer. Tenho que entregá-lo com vida.” -pensava Obadian.

Verbena molhava um tecido úmido em água fresca e passava na testa de Andivari.  Vladislav amolava sua espada. Seu olhar era de culpa. Em sua mente ele relembrava do dia da luta em que Andivari fora ferido. Uma criatura jamais vista. A ferida não parecia ter sido grave naquele dia. O máximo que ficaria seria uma cicatriz. Foi o que todos pensaram.

“_ O maior impacto do golpe foi defendido por Andivari...” -se questionava mentalmente Vladislav. “_a não ser que ...”

De repente a carruagem para bruscamente... um dos cavaleiros da retaguarda avança a galope. Andivari e Obadian Teron colocam a cabeça para fora da carruagem para ver o que estava acontecendo.

A noite estava clara, mas o caminho da floresta já era escuro por natureza. As tochas acimada carruagem iluminavam apenas alguns metros adiante. Mas ao olharem adiante viram que o cavaleiro que saiu a galope foi averiguar uma tocha que estava caída ao chão logo adiante. Em pouco tempo ele voltou a galope e parou ao lado da janela em que estava Obadian.

_Senhor, é um dos nossos batedores. _ Ele está morto.

_Como assim? E os outros?

_Nem sinal deles, senhor.
_Isso não é possível.

_Eles devem ter sido atacados senhor, e o corpo adiante deve ser do soldado que tentou nos avisar do perigo adiante. Estamos com poucos homens senhor... Devemos retornar?

_Era um risco sermos atacados, mas estamos com as cores de Markden e essa região está sob nosso domínio... quem ousaria nos atacar? -Questionou um outro oficial aproximando da conversa.

_ E senhor... continuou o relato o soldado que havia avançado adiante e retornado. _ O corpo senhor...a armadura está perfurada e o coração foi arrancado.... seja lá o que atacou o homem, levou seu coração.

Ao ouvir o relato Obadian Teron tremeu e seus olhos se arregalaram de pânico. Vladislav observou inquieto o velho soldado se tremer de medo e gaguejar...

_De..dede..deem meia volta..te..tetemos que retornar...

_Senhor??

O medo de Obadian teron preocupou a todos... Obadian agora olhava aflito para a floresta.

_Olhos brilhantes...na floresta...nos espreitando... -balbuciava Obadian Teron.



quarta-feira, 21 de junho de 2017

Dias de Dor.

Passaram se dias desde que Andivari e seus amigos chegaram ao acampamento dos Markdenos. Obadian Teron demonstrara ser um anfitrião agradável. Sempre enviava servos com alimentos frescos e bebidas saborosas dos mais variados tipos. Suas cobertas de dormir eram trocadas quase que todos os dias por cobertas limpas e quentes. Fizera uma tenda para Verbena e deixara um guarda de plantão dia e noite na entrada. Dizia que era para garantir a segurança dela.
“_. Um acampamento de guerra não é um lugar para uma dama. É meu dever garantir que nada de errado aconteça com você, minha querida.”
Verbena desconfiava de cada atitude cortês dos anfitriões. Principalmente quando ela conseguia conversar com alguns prisioneiros. Havia dois dias que ela saía pelos fundos da tenda e conversava com uma prisioneira chamada Khalieshy. O jovem Vladislav passava os dias treinando com a espada. Mesmo depois de ser advertido pelo curandeiro de que precisava fazer repouso. Já o pobre Andivari parecia definhar-se cada dia mais. Suas feridas inflamavam e a dor era constante em seu semblante. Verbena lamentava a todo o momento ver o amigo naquele estado. No fundo ela desconfiava do curandeiro. Achava que ele não sabia o que estava fazendo. Certa vez tentou ir procurar plantas medicinais por conta própria, mas não foi autorizada a deixar o acampamento porque as “Viúvas de Stavianath” estavam fazendo ataques pelas redondezas.
            Realmente os soldados estavam mais preocupados aquele dia. Rumores de que as “viúvas” atacariam antes das duas luas alinharem nos céus eram cada dia mais frequentes. Verbena ouvira algo sobre ainda precisarem de mais dois jovens para completarem a demanda. Não sabia do que se tratava, mas sua nova amiga, a prisioneira Khalieshy, havia lhe dito algo sobre precisarem de trinta jovens para trabalhos escravo nas florestas De Markden. O rei Keiran havia prometido construir uma nova frota de navios para os Hellins e os jovens stavianathos eram requisitados para cortarem madeira nos cantos mais ermos das florestas. Nos últimos tempos nem mesmos as jovens mulheres estavam sendo poupadas dos serviços braçais.
“_. Vimos o que essas infelizes são capazes de fazer com o arco e a espada. Se elas são aptas para lutar, também serão aptas para trabalhar.” - Disse um comandante ao ser questionado por Vladislav.
            Naquela noite Andivari agonizava de dor. Seus gritos eram ouvidos por todo o acampamento. Vladislav permanecia na porta da tenda parado e com um olhar tristonho. No fundo ele sentia medo. Sempre achara que a morte o perseguia, mas vê-la perseguir a atacar um amigo parecia aterrorizá-lo mais do que se fosse ele mesmo a sentir tal sofrimento. Verbena tentava auxiliar o curandeiro de todas as formas. Passava unguentos nas feridas, um pano úmido no rosto suado de Andivari o segurava no leito quando ele tinha ataques de espasmos. 


            _. Faça algo homem. Ele está só piorando. -Implorava Verbena.
_. Estou fazendo o melhor que posso minha jovem. Mas ele parece rejeitar meus unguentos. -Reclamava o curandeiro.
_. Pelo visto o seu melhor não vale nada para esse homem. -Disse Obadian ao entrar na tenda segurando uma garrava de vinho já pela metade nas mãos. _Saia já daqui. E chame dois homens com uma maca. Peça para prepararem minha carruagem.
_. Sim senhor! -Respondeu o curandeiro saindo aos tropeços ao ser empurrado.
_. Minha jovem. -Disse suavemente, ainda que um pouco bêbado, Obadian Teron a Verbena. _. Nosso amigo já ficou aqui tempo demais. Perdoe-me por não ter tomado essa decisão antes, mas ele deve ser enviado o quanto antes ao palácio real. Em Anarkden ele receberá os devidos cuidados. Acredite. É a única chance dele.
            _. Então iremos com ele. -Disse Vladislav ao ouvir a conversa.
_. Não se faz necessário. Meus melhores homens o escoltarão até o palácio.
_. Isto não foi um pedido meu caro. -Disse Vladislav com um tom sinistro na voz.
_Sim. Não vamos nos separar de nosso amigo por nada. -Completou Verbena.
_. Como queiram. Mas apressem-se em pegarem seus pertences. A carruagem irá sair em breve.


                                                                                                                ...Continua!