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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O Pacto

Andivari acordou após dormir dois dias seguidos. Sua cabeça estava enfaixada e o seu olho ferido estava coberto pelas faixas o deixando com uma visão monocular. Seu peito doía e seu braço estava dormente. No seu ombro, uma dor fincava o fazendo relembrar do golpe sofrido na luta contra homens de Stavianath. Ele havia sido salvo e tratado, mas não lembrava de seus salvadores. Se deu conta que no momento da batalha estava acompanhado por Verbena e Vladislav. Levantou-se assustado buscando encontrar algum dos dois ao seu redor, mas uma forte dor na sua cabeça o fez deitar se novamente. Com a mão na cabeça tentando amenizar a dor o vulto em sua mente o fez olhar para o lado. Lá estava um homem calvo de rosto severo. Olhos verdes e profundos estudavam Andivari.
_Boa tarde cavaleiro! Finalmente acordaste. Temos muito o que conversar. Sou o general Obadian Teron. Eu e meus homens...
_. Onde estão meus amigos? -Interrompeu Andivari. _. Um jovem corpulento e uma jovem donzela. Ambos estavam comigo.
_. Não se preocupe. -Falou Teron com um olhar impaciente por ter sido interrompido. Eles estão bem. Eu garanto. Em breve vocês se encontrarão. Mas vamos falar de você. Seus ferimentos são graves. É um milagre ter aguentado até agora.
_. Não compreendo? Não me sinto tão mal assim. -Questionou Andivari.
_. Isso porque você tem sido tratado pelo meu curandeiro particular. Ele possui vasto conhecimento em medicinas alternativas. Mas esse bem-estar é passageiro. Você provavelmente perderá a visão do olho ferido e os movimentos de um braço. Seus dias de guerreiro chegaram ao vim. Justo agora que eu contava com sua ajuda nessa guerra sofrida.
_O que te faz pensar que eu tomaria parte de algum lado dessa guerra sem sentido? E que diferença faria um guerreiro a mais em seu exército. 
_. Não me tenha por um tolo Andivari. Todos os soldados te conhecem. As histórias sobre a batalha das “Areias profundas” ainda encorajam jovens a se alistarem em vários exércitos. Mas, não estou aqui para falar de seu passado. Estou aqui para falar de agora. De como você pode me ajudar a pôr um fim nessa guerra. Ainda há alguns rebeldes do povo de Stavianath oferecendo resistência. Mesmo sem nenhuma chance de vencerem. Isto só tem causado perdas desnecessárias de vidas.
_. Os seus exércitos não pareciam estarem preocupados com perdas de vidas quando atacaram de forma cruel os civis das cidades de Stavianath. Eu estava na capital general. Vi com meus próprios olhos a crueldade e covardia de seus homens. E agora que os guerreiros de Stavianath começam a oferecerem resistência você quer que eu o ajude a pacificar a situação? Acho improvável.
_. Você parece levar em grande consideração o povo de Stavianath não é mesmo? Não se esqueça que eram homens de Stavianath que atacaram você e seu amigo e quase estupraram a jovem que os acompanhava. Qual é mesmo o nome dela? Verbena, certo? -Falou Obadian com um tom de sarcasmo na voz. Minha intenção é evitar mortes desnecessárias. Os rebeldes não me ouvirão, mas, se você falar com seus líderes pessoalmente, talvez possa convencê-los a se renderem. Em troca eu providenciaria liberdade para você e seus amigos. Além de pedir ao meu curandeiro para se empenhar em sua total restauração.
_. Irei pensar. -Disse Andivari. Você mesmo disse que meus ferimentos são graves demais para que eu possa recuperar-me totalmente. E o que aconteceria com os soldados de Stavianath que se rendessem?
_. Ora homem, não há muito o que pensar. -Indignou-se Obadian Teron. – Pensa em sua amiga. No seu pupilo e em você mesmo. Os soldados de Stavianath receberam julgamentos justos. A maioria ganhará a liberdade dentro de alguns anos. O próprio rei me garantiu isto. Faça o que é certo. Salve vidas. Salve a sua própria vida.
Andivari percebia o tom de voz de Obadian Teron. Se ele não cooperasse provavelmente ele nunca sairia daquela cama. E Vladislav e Verbena provavelmente também seriam punidos. “-devo pensar no bem de todos os envolvidos”.
_. Tudo bem! -Disse Andivari por fim. _eu irei ao acampamento dos rebeldes e conversarei com eles. Desde que você me dê sua palavra de que eles não serão feridos caso se rendam.


_. Você tem minha palavra. Escolheste bem Andivari. Escolheste com sabedoria. Vou enviar meu curandeiro com instruções de fazer tudo o possível para recuperá-lo.
Obadian Teron saiu da tenda dando passos largos e um sorriso de satisfação no rosto deixando para trás um Andivari pensativo.
Logo após sua saída Vladislav e Verbena foram escoltados até a tenda onde Andivari estava. Os três amigos passaram um bom tempo conversando.
Ao passar por um ferreiro que martelava incessantemente uma barra de ferro, Obadian Teron foi surpreendido por uma voz a chama-lo.
_General? Aqui.
Ao olhar ao redor viu que um homem observava as espadas trabalhadas pelo ferreiro que parecia não os perceber.
_. Quem me chama? Oh, Lecain? Aqui?
_. Como foi a conversa com nosso guerreiro. -Quis saber Lecain ignorando o espanto do general.
_. Ocorreu tudo nos conformes. Andivari irá conversar com os rebeldes.
_Ótimo! Cuide para que os ferimentos dele piorem e que ele tenha que ser levado até minha presença. Estarei no palácio real em Anarkden.
_. Sim, senhor. Meu curandeiro tem providenciado isto.

Lecain deixou a espada que manuseava no lugar e saiu dando um rodopio em direção as tendas dos soldados. Obadian Teron ficou o observando sumir por entre as tendas enquanto que o ferreiro martelava e martelava. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

De volta ao lar

A cidade estava eufórica com a chegada do príncipe Gamblior. Muitos foram os boatos de sua morte, mas a presença do príncipe onipotente em cima de seu garanhão branco afastava qualquer duvida de que a noticia de sua morte havia sido uma cruel artimanha inimiga para enfraquecer a moral dos soldados de todas as cidades do reino de Hellin- Odel.  Soldados que prontamente partiram em auxílio do príncipe.
Mas os deuses estavam do lado do reino. A batalha ao sopé da cordilheira havia sido vencida e Cron e seus soldados haviam sucumbido. A capital de Stavianath, Shadarph, havia sido destruída e as demais cidades estavam dominadas. Graças ao auxílio do rei Keiran Dehildren, Senhor de Markden, a vitória havia sido conquistada.
_Eles ameaçaram nosso reino e nosso rei, mas o jovem Gamblior conquistou-nos uma vitória e nem mesmo a “morte” pode vencê-lo. –Falavam nas tavernas e ruas de Hellin-Odel.
_Lembram de como nos ameaçaram os homens de Stavianath?
_E aquelas mentiras de que nosso príncipe havia assassinado a princesa Kathrina?
 _Tolices. Eram puras tolices daquele povo mesquinho. Mas nosso príncipe vez justiça. Sim, ele fez. Fez cada um pagar pelas calúnias e difamações que fizeram com seu nome. Agora ele está conosco.
_Vida longa ao príncipe Gamblior. –Todos gritavam enquanto o príncipe passava.
Gamblior estava diferente. Mais corpulento apesar dos castigos das batalhas. Erguia-se prepotente em sua montaria branca. Exibia uma armadura negra com rebites de aço no peitoral e na ombreira. Apesar dos arranhões em seu braço, somente a cicatriz em seu rosto parecia significante. Um corte que descia da fronte passando sobre o olho esquerdo e indo acabar na orelha. Seus cabelos haviam crescido e cobriam parte da cicatriz, mas o seu olho direito assumira uma tonalidade vermelho-sangue. Quem via não sabia dizer se Gamblior ainda era capaz de enxergar com aquele olho.
O príncipe adentrara Hellindria, a cidade capital de Hellin-Odel junto com uma comitiva de duzentos homens, mas do lado de fora da cidade, entre a muralha e a praia, um enorme acampamento havia sido montado. Um exército de setenta mil homens estava espalhado pela praia, e nas colinas próximas da cidade. Navios ostentando bandeiras de Markden e de Hellin-Odel não paravam de chegar amontoados de guerreiros espólios de guerra adquiridos nas terras de Stavianath.
Hellindria havia sido construída ao sopé de uma imensa montanha intransponível que protegia toda ala leste da cidade. Ao redor da cidade haviam sido construídos quatro muros que separavam o povo por classes. Todos em formato de meia lua, começando em uma ponta da montanha e terminado na outra ponta.
 Mas todos os cidadãos, independente da classe passavam pela avenida principal que se estendia do portão principal, passando por mais três portões e indo até as portas do palácio real.
A maioria dos soldados que o acompanhavam se dispersaram ao chegarem ao terceiro portão. Somente um grupo de vinte e três homens continuou a cavalgada ao lado de Gamblior quando estes transpuseram o quarto e ultimo portão.  A região nobre de Hellindria era ainda mais esplendorosa que as demais. Estatuas de Tolnd e ouro enfeitava quase todas as esquinas. Arvores com folhas vermelhas e amarelas coloriam o ambiente ao mesmo tempo em que deixava o ar com um cheiro agradável.
No final da avenida, o palácio erguia suas torres aos céus. Todo pintado de branco, às vezes se mesclava com o branco da neve que cobria a montanha atrás dele. Diante da imensa porta escarlate que fazia contraste com as paredes brancas do palácio, Fandron aguardava a chegada do filho. Quando Gamblior ficou diante de Fandron, o rei olhou seu filho com um olhar desconfiado.
_Não vai abraçar seu filho, pai? –Disse Gamblior descendo de sua montaria.
_Claro que...vou. Meu ... filho.  Fandron abraçou o filho e o beijou na face, visivelmente incomodado.
_Que bom que estais vivo, meu filho. Venha, temos muito que conversar.
Os dois adentraram o castelo seguido de alguns poucos homens que os acompanharam até o salão principal e depois os deixaram a sós nos aposentos do rei.
Enquanto caminhavam lado a lado, o rei olhava para o filho analisando-o a cada passo. De súbito sua mente o levou ao passado. Quando sua esposa falecera ao dar a luz a... uma “aberração”... ao filho.
Gamblior havia nascido junto com um irmão gêmeo. Contudo o irmão era coligado a Gamblior pela cabeça. Siameses, “uma anomalia”, alguns diziam. O rei cuidou para que ninguém soubesse que o seu filho havia nascido deformado. Apenas o general Urizeh, que foi incumbido de matar a parteira antes que esta falasse algo a alguém, era que sabia.  Foi o general Urizeh que disse conhecer alguém que poderia ajudá-lo. E assim o rei Fandron conheceu Lecain.
Lecain poderia separar os irmãos siameses, mas haveria um preço. Lecain iria criar um deles longe do castelo e da vista de todos. Ele deveria ser criado longe do pai, do irmão e da realeza. Ele seria criado para um propósito maior e quando chegasse à hora o rei deveria aceitá-lo como o verdadeiro e legitimo herdeiro do reino. E este escolhido conquistaria todos os reinos.
_E o que será do outro filho? O que for criado comigo? –Perguntou Fandron ao estranho homem que estava diante dele. 


_ Não se preocupe com isso agora. Apenas cuide dele e o ame como um pai deve amar um filho. Mas quando o outro retornar será melhor amá-lo da mesma maneira. –Disse Lecain a Fandron naquela longínqua noite.
Quando o rei consentiu Lecain levou as crianças unidas pelo crânio e após uma semana retornou com um garoto saudável nos braços. Ele possuía a cabeça enfaixada e Lecain o visitava periodicamente durante um ano. Quando Fandron fazia menção sobre o outro filho Lecain apenas dizia.
_Este é seu filho. Ame e desfrute do tempo que vocês puderem compartilhar.
Aquelas palavras sempre deixavam Fandron amedrontado. E quando ele olhava a criança no berço, tão perfeita, tão bela, Fandron também tinha medo. Tinha medo de perdê-la. Ele abraçava a criança amorosamente e a segurava protegendo-lhe a cabeça nos braços. Não faltou amor àquela criança.  Mas aquela criança estava no passado. O homem que caminhava ao seu lado e o chamava de pai era um estranho. Eles poderiam ser fisicamente semelhantes, mas não era o mesmo. Aquele olhar não era de Gamblior e a cicatriz no rosto só piorava a aparência. Mas esse Gamblior fazia questão de exibir cicatrizes. Nos braços e pernas havia cicatrizes espalhadas. Cicatrizes antigas e cicatrizes recentes.
_Cicatrizes demais para um príncipe. –Pensava Fandron. _Seja como for, este também é meu filho. Tenho que amá-lo como amava o outro.


Os dois caminharam em silencio lado a lado e em silencio permaneceram durante o resto do dia. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Em Busca da verdade.

Havia passado três dias desde que Verbena, Andivari e Vladislav haviam saído de Stavianath pela caverna. Perceberam pelas fazendas e vilarejos que passavam que a guerra estava acontecendo. E era um inimigo cruel que destruía Stavianath. Um inimigo que por muito tempo havia sido um grande aliado. 
Por onde passava, o general Obadian Teron deixava sua marca. E sua marca era cruel. Famílias inteiras eram massacradas após servirem aos seus soldados. Mulheres eram estupradas e crianças mortas pelo simples fato de chorarem. Pelo menos foi o que disse o fazendeiro moribundo que encontraram na fazenda destruída. O fazendeiro logo faleceu pois suas feridas estavam além dos conhecimentos de Verbena para auxiliá-lo. Agora, o único comodo que não havia sido totalmente queimado servia dormitório para os três passarem a noite e cuidarem do ferimento de Andivari. 
 A cicatriz do rosto de Andivari se abriu e voltou a inflamar . Verbena passava muitas horas cuidando dele enquanto Vladislav vigiava o recinto. A ferida que deixara uma enorme cicatriz no lado esquerdo do rosto parecia não querer curar e nem mesmo os unguentos doados por Lecain pareciam surtir efeitos.  Verbena estava preocupada pois já havia muito tempo que Andivari sofrera o golpe que o deixou com a cicatriz . Eles tentavam encontrar Lecain para inocentar o falecido príncipe Gamblior na época.
_Guntz ainda estava vivo. E até mesmo Gamblior. -Pensava Verbena. 


A história a seguir se refere ao passado, quando Andivari, Verbena e Vladislav, com a ajuda de Guntz, tentavam encontrar Lecain para inocentar o príncipe Gamblior.
" meses atrás..." 
 Os quatro saíram cedo. Andivari, Vladislav, Verbena e Vesser Guntz, o novo guia que os levariam pelos caminhos ocultos da floresta. Com um jeito imaturo e brincalhão, Guntz logo conquistou a simpatia de Verbena e Andivari. Somente Vladislav teve uma relutância inicial de aceitá-lo. _Ele fala demais. –Resmungava Vladislav. _Ele é um mestiço Vladislav. Já sofre preconceitos demais por parte da maior parte da sociedade. –Repreendeu Verbena. _Não acha que seria melhor aceitarmos sua tagarelice como sinal de afabilidade?
 O mestiço herdara as habilidades de seus antepassados élficos em rastrear na floresta. Via rastros onde ninguém mais via. Estava sempre cantarolando algo, mas quando encontrava um rastro, fazia sinal para todos ficarem em silencio. Sua fisionomia adquiria um aspecto sério que logo era quebrado quando ele concluía sua análise do terreno. Eles adentravam a mata em direção a floresta Delron na esperança de alcançarem Lecain. Quando Andivari decidiu ajudar o príncipe Gamblior, descobriu que o mago Lecain havia prevenido o rei de que a princesa Kathrina seria morta. Mesmo que Gamblior não estivesse no castelo quando a princesa foi assassinada, o rei não estava disposto a inocentar o príncipe. Principalmente porque havia uma testemunha de que Gamblior havia realmente matado a princesa Kathrina. Lecain era sua esperança de inocentar o príncipe. Pois se ele sabia que a princesa seria morta, provavelmente ele sabia quem a havia matado.
 Lecain era um mago exótico. Alguns acreditavam que na verdade ele era praticante do conhecimento ágtis, pois ele não aparentava sofrer os males dos praticantes da magia. Certo era que dentre os dons de Lecain, estava a habilidade de vê o futuro e o passado. Pelo menos era o que diziam e por mais cético que Andivari fosse, Lecain era sua única esperança.
 No segundo dia de caminhada, ao cair da quinta hora do período de Álax, Guntz se surpreendeu com um fato que havia passado despercebido pelos outros. _Já passamos por aqui.
 _Como assim? Eu não me lembro disto. –Questionou Vladislav. _Está um pouco diferente de quando passamos pela última vez, mas é um fato. Nós já passamos por aqui. Veja esta marca no tronco desta árvore velha. Fui eu que fiz. Quando fiz essa marca a arvore ainda estava jovem e frondosa, mas tenho certeza que é a mesma árvore. 
_Talvez Lecain não queira ser encontrado e esteja utilizando de magia para nos enganar. – Arriscou um palpite a jovem Verbena.
 _Pode até ser verdade, Verbena. Mas não podemos desistir agora. Temos que encontrar Lecain custe o que custar. –Afirmou o convicto Andivari.
 _Pode não ser Lecain. –Dizia Guntz. _Pode ser a própria floresta. Dizem que a floresta de Delron é uma floresta com fortes propriedades mágicas e que se ela se sentir ameaçada ela dá um  jeito de atacar os viajantes fazendo eles se perderem e caírem em armadilhas criadas pela própria natureza. _Temos que prosseguir. Logo irá escurecer de novo e se tornar praticamente impossível perambular pela floresta no período de Erius. 
Quando anoiteceu, como era de costume Andivari e Vladislav fizeram uma fogueira e Verbena preparou um coelho gordo que Guntz havia caçado com seu arco. O coelho foi preparado com batatas e condimentos que Verbena trazia em sua mochila de viagem. Logo o cheiro agradável que se espalhou pelo ambiente. Assim que Verbena começou a servir as tigelas, Guntz iniciou a vocalização de um estranho mantra. _O que está fazendo mestiço? –Questionou Vladislav. _Estou afastando os predadores de perto para podermos ter uma refeição em paz. _O único predador aqui sou eu. Se não comer logo eu irei ajudá-lo a degustar esse ensopado de coelho. 
Todos pareciam bastante descontraídos. Até mesmo Vladislav parecia se divertir. Aquela foi a primeira noite na floresta que conseguiram dormir bem. 
Ao amanhecer Andivari e Vladislav conversavam baixo enquanto Verbena e Guntz ainda dormiam. _Também percebi. –Respondia Vladislav a um comentário de Andivari.
 _Esta noite não ouvi o barulho dos insetos como é de costume.
 _Esta parte da floresta é bastante estranha. Observe que até mesmo agora não há tantos pássaros cantando como deveria haver. A floresta está em silêncio.
 Quando todos acordaram e tomaram um rápido desjejum, prosseguiram o caminho. Guntz havia encontrado um rastro que levava a uma caverna conhecida nas proximidades. Era conhecida por ser morada de uma matilha de “lobos de fogo”.
 Lobo de fogo era uma raça de lobos que existiam em Delron. Eles possuíam a pelagem vermelha, eram ferozes e a territorialidade era uma de suas características mais marcantes. Caso os rastros realmente levassem até a caverna, não seria fácil enfrentar os lobos. 
Ao chegaram à entrada da caverna, Guntz percebeu que os lobos haviam passado em alta velocidade por aquele local. Como se tivessem fugido de algo. _Os lobos fugiram de algo que ainda pode estar dentro da caverna. –Concluiu Guntz depois de observar atento o chão ao seu redor e mais adiante. Logo adentravam a caverna. Andivari e Vladislav iam à frente com espadas e tochas em punho. Logo atrás vinha Verbena e o próprio Guntz. A entrada da caverna era imensa e a claridade aprofundava bastante após se aprofundarem chão adentro. Desceram por uma escada de pedra feita pela própria natureza até um chão que era coberto de areia. Andivari observou que havia sangue seco no solo. Logo adiante encontraram o primeiro lobo. Ele havia sido partido em dois. Seja lá o que for que fizera aquilo havia utilizado uma lâmina em brasas, pois o pelo ao redor do ferimento havia sido todo chamuscado no momento em que ocorrera o corte e um cheiro de carne queimada ainda impregnava o ar. 
 _Esperem! –Advertiu Guntz. _Estou ouvindo algo. Ninguém a não ser o próprio Guntz parecia ouvir alguma coisa, mas mesmo assim todos pararam. Já haviam aprofundado uns vinte metros caverna abaixo e encontraram dezenas de lobos mortos. Guntz insistia no barulho. _Vários estalos metálicos como se estivessem batendo lanças no chão de pedra. –Dizia ele. O grupo estava em um salão cavernoso que possuía dois corredores além do que eles haviam vindo. Logo todos começaram a ouvir o estranho barulho ritmado e cada vez mais próximo. Seja o que fosse, estava vindo em direção a eles. E vinha em grande velocidade. 

À medida que aproximava, todos tinham uma ideia do tamanho de seja lá o que for. Guntz soltara a tocha no chão e se equipara com seu arco encaixando uma flecha na corda e flexionando ao máximo o arco. Apontava para a entrada dos corredores. Hora e um, hora em outro. E foi com um grito animalesco que a criatura surgiu. Com aproximadamente três metros de altura e uns cinco e meio de envergadura, uma criatura aracnídea com o corpo revestido por uma couraça metálica e olhos que emitiam uma forte luz amarelada saiu de uma das entradas de um corredor. O que se seguiu foi um combate violento de fúria e pânico misturado em uma hedionda dança macabra pela sobrevivência. Andivari e Vladislav golpeavam repetidas vezes as patas da criatura na esperança de conseguirem derrubá-la, mas tudo o que conseguiam era irritar a criatura. Quando as espadas se chocavam contra o corpo da criatura os golpes soltavam faíscas, mas sequer perfuravam a couraça metálica da criatura. Guntz pulou por baixo da criatura no momento em que esta iria acertá-lo com um golpe fatal com uma das patas pontiagudas. Saiu do outro lado, nas costas do monstro enfurecido e com agilidade sobre-humana subiu por seu tronco e disparou várias flechas que simplesmente ricocheteavam em sua carapaça metálica. A criatura girou enfurecida lançando Andivari e Vladislav longe. Verbena avançou com a espada em punho gritando um grito de fúria e medo misturado e mirando o golpe entre o corpo e a pata dianteira conseguiu ferir a criatura que caiu gritando ensurdecedoramente jogando Guntz longe no processo da queda.
 Suas outras patas começaram a golpear desvairadamente quando um golpe veio em direção de Verbena cortando o ar. Em fração de segundos a promessa de Andivari ao pai de Verbena veio à tona em sua cabeça. Sem hesitação Andivari se jogou na frente do golpe parando a pancada com a espada. Infelizmente o golpe era violento demais e a pata afiada da criatura atingiu o rosto de Andivari deixando sua visão rubra. Verbena correu ao auxilio de Andivari que havia caído cego devido ao sangue que saía da ferida em seu rosto. Vladislav tentava encontrar uma brecha nos ataques eufóricos da criatura.
 _Vamos sair daqui senão morreremos. –Gritou Vesser Guntz.
 _Não será hoje que a morte me levará. –Bradou Vladslav atingindo um dos olhos da criatura que estranhamente explodiu lançando um clarão ofuscante por todo salão. A iluminação estava fraca, pois as tochas haviam caído no chão, mas ainda assim todos viram o vulto aproximando se. Logo, um velho de cavanhaque negro e pontudo, vestido com um manto marrom e um cinto de metal dourado na cintura, apareceu na entrada do salão cavernoso. Em sua mão trazia um medalhão que ele brandiu no alto de sua cabeça e o medalhão emitiu um  estranho brilho seguido de um leve ruído que fez com que a criatura aracnídea emitisse um som semelhante a um assobio agudo e caísse nocauteada. _Posso saber o que vocês fazem aqui? –Perguntou o velho Lecain expressando uma face raivosa enquanto guardava o medalhão mágico em uma bolsa de couro vermelho que trazia ao lado da cintura.
 _Buscamos por respostas. Respostas que acredito que o mago que tudo sabe poderá nos dizer. –Falou Andivari se erguendo com o auxilio de Verbena. _Se algum de vocês conhecerem alguém que a tudo sabe, por favor, me apresente. Com certeza deve ser alguém bastante singular. –Falou zombeteiramente Lecain. _Agora deixe me ver esta ferida. Não precisa ser nenhum sábio para saber que esse ferimento vai infeccionar se não for devidamente lavado e tratado.
 _Queremos saber quem matou a princesa Kathrina. –Disse sem rodeios Andivari enquanto Lecain apalpava sua ferida. _O jovem príncipe Gamblior pode morrer caso não encontremos o verdadeiro culpado.
 _E o que o faz crer que eu sei a resposta? E como tens tanta certeza da inocência do príncipe de Hellin-Odel?
 _Foi você que disse que ela morreria. “_Aquele que trás a morte para dentro do reino é aquele que possui os cabelos de ouro...”, você disse. Com essas palavras você acabou por condenar a Gamblior. _Sim. Eu disse. Mas não disse que seria Gamblior a matá-la. Se minhas palavras fossem culpa-lo também teriam culpado a ti e ao seu amigo aqui. Disse dirigindo um olhar a Vladislav. _Ou até mesmo a jovem moça. –Olhou Verbena nos olhos enquanto passava um unguento na ferida de Andivari. _Afinal de contas todos vocês possuem os “cabelos de ouro”.
 Andivari sabia que Lecain tinha razão. Na verdade se não fosse as acusações de Durkan contra Gamblior, todo forasteiro de cabelos dourados em Stavianath seria um suspeito. E isto teria incluído ele e seus companheiros na lista de suspeitos.
 _Aquele que acusa o príncipe é que sabe quem matou Kathrina. Ele está vendado pela confusão, mas tão logo sua mente esteja esclarecida os olhos recobrarão a visão. Durkan estava cego de ciúmes e ódio de Gamblior. Seria razoável se seus olhos vissem o seu inimigo pessoal no lugar do assassino de Kathrina.
 _Pode ser que o velho tenha razão. –Comentou Guntz.
 _Você precisa vir conosco Lecain. Tens de convencer o rei Cronder de que Gamblior pode ser inocente. –Falava Andivari ainda aflito pela dor em seu rosto.
 _Você não pode viajar com esse rosto assim meu jovem. Descansem pelo menos uns dois dias. _Ficar aqui com essa criatura? –Perguntou o assombrado Guntz dirigindo um olhar apavorado para a criatura imóvel no solo. _Jamais. –Afirmou enfim.
  _A criatura está sob meu domínio agora. –Dizia Lecain. _ E lamento, mas não posso abandonar meus processos mágicos agora. Já basta a interrupção que vocês me causaram. Fiquem com esses unguentos para tratarem das feridas. No final desse corredor existem alguns cobertores de peles e uma lareira. Fique o tempo que precisarem, mas não me incomodem mais.
 Dizendo isso, Lecain seguiu o outro corredor. Em um estrondoso salto a criatura se ergueu e seguiu Lecain. Andivari queria segui-lo e questioná-lo, mas sabia que precisava retornar antes do julgamento de Gamblior. Sentia-se culpado por ter feito a viagem e não ter conseguido convencer Lecain de retornar com ele. 
De uma janela mágica Lecain viu quando os viajantes saíram da caverna em direção ao reino de Stavianath.
 _Meus planos não poderiam ter saído melhores. –Pensava Lecain. _Ao que me parece terei de fazer uma ultima visita ao prisioneiro. 

"de volta ao presente..."
Andivari queimava de febre. Verbena acariciava seus cabelos enquanto passava um pano úmido em cima de sua cicatriz inflamada. A cicatriz assumira um aspecto horrível. _Ele perderá a visão do olho esquerdo, como certeza. -Concluía em seus pensamentos.  
Os dois estavam próximos a uma lareira. As paredes ao redor ainda possuía o cheiro e o aspecto escuro do recente incêndio que destruiu a maior parte dos cômodos da casa.  




              

domingo, 31 de maio de 2015

O Rei Renascido



       Já era noite quando o general Obadian Teron avistou as muralhas de Anarkden no horizonte. O corpo gélido de Keiran pesava em seu ombro. O cheiro ocre de sangue coagulado preenchia suas narinas e vez ou outra dava lhe náuseas. Mesmo assim ele continuava a carregar o corpo do falecido rei. Suas roupas estavam encharcadas de sangue escuro e pegajoso. Temera deparar se com animais selvagens por todo o trajeto. Verdade era que até estava esperando por isso, mas como não ocorreu nenhum encontro deu créditos ao seu destino que estava prestes a mudar satisfatoriamente.

      Em breve essa vida de servidão ficará para trás. Serei o novo rei de Markden. –Pensava Obadian Teron. –O próprio Lecain me garantiu os meios para tal fim. Tenho apenas que entregar o corpo do rei para ele que ele cuidará do resto. Ainda bem que esse saco de estrume não teve filhos, senão seria mais complicado. Como pode ter uma mulher daquela como esposa e não ter filhos? Herr... Provavelmente não deveria ser homem mesmo. Pois quando eu for rei vou foder aquela mulher como ela nunca imaginou ser. E vou gerar vários filhos até que ela se acabe de tanto parir. _Obadian colocava um sorriso perverso em seu rosto enquanto devaneava sobre seu possível futuro. Por um momento esqueceu-se do peso incomodo do corpo morto de Keiran.
      Nos céus, as duas luas brilhavam. _Os olhos de Iévine. Pensou quando olhou para o céu. _Pois vá se ferrar Iévine. Falou em voz alta quando virou em uma trilha ao leste da muralha de Anarkden. Antes de tudo deveria levar o corpo de Keiran até Lecain. E Obadian sabia onde encontra-lo. E não era na cidade.
     Meia hora depois, Obadian batia na porta de uma cabana rústica aos arredores da muralha exterior de Anarkden. Era comum que os plebeus construíssem suas cabanas nas proximidades da cidade. Mesmo que fossem sempre as primeiras vítimas quando a cidade era alvo de ataque, a proximidade da muralha dava lhes uma falsa sensação de segurança. Havia muitos anos que Anarkden não sofria qualquer tipo de ataque. Isso fez com que cabanas desse tipo proliferassem ao redor da muralha. O rei havia até decretado que para se viver ao redor da muralha cada cidadão pagar um imposto simbólico de um barão de bronze. Muitos plebeus foram embora viverem aos arredores de outra cidade depois disso, mas a maioria ficou apenas para poderem ser chamados de “cidadãos” em um documento oficial do rei. Verdade era que as moedas que eles pagavam eram as mesmas que o agora morto, rei Keiran lançava aos mesmos plebeus quando passava pelas arruelas da cidade. Adquiria assim a fama de “bondoso rei”. “_Uma forma inteligente de fazer a economia girar.” - lembrou-se que Keiran costumava lhe dizer. –Pois quanto eu for rei vou mandar queimar todo esse “entulho”. –Pensou.
     Foi na terceira batida que um homem alto e magro abriu a porta. _Entre. –Disse secamente.
     _Já era hora. Você faz ideia de quanto tempo estou carregando esse cadáver?
     _Pouco me importa. Traga-o até meu aposento particular.
     A resposta ríspida e direta de Lecain deixou Obadian irado, mas ele se conteve e apenas obedeceu.      –Quem este velho está pensando que é? Posso mata-lo sem dificuldade. Pensava enquanto carregava o corpo de Keiran até um quarto iluminado por luzes mágicas que saíam de objetos estranhos feitos de metal. Uma cama estranha estava no centro do quarto e aparelhos exóticos projetavam garras metálicas e mortíferas na direção dela. A visão daquele ambiente estranho causou certo pavor em Obadian e ele se arrependeu do pensamento que havia tido pouco tempo atrás. Lecain era conhecido como um bruxo pacífico. Que sacrificava sua saúde em prol da paz e em auxilio do próximo. Quando o conheceu e soube de seus planos não havia acreditado que era apenas “pelo bem maior das nações”, como Lecain havia lhe dito. Pensava que o velho queria apenas ouro, mas, agora não tinha certeza do que ele queria. Sempre suspeitara que Lecain fosse um charlatão. –Esse velho se perfuma demais. Ele esconde algo.
     _Coloque o corpo encima desta cama e saia. Aguarde no outro aposento e não entre e nem deixe ninguém entrar. Por nada desse mundo alguém deve entrar aqui, entendeu?



     _Sim senhor. Obadian Teron colocou o corpo inerte de Keiran na cama e saiu mais depressa do que imaginava ser possível. Teve medo de que as garras metálicas fixadas no teto caíssem sobre ele com golpes mortíferos, mas elas não moveram nenhum centímetro.

     Ao sair, Obadian Teron apoderou se de uma garrafa de vinho e desabou exausto em uma poltrona mofada que ficava perto da porta. Após bebericar alguns bons goles do vinho tentou dormir, mas os estranhos sons vindos do quarto onde se encontravam Lecain e o cadáver o deixou assustado demais para pensar em fechar os olhos. Pareciam carne sendo rasgada e gritos de mil demônios das profundezas do mundo. Parecia que ocorria uma tempestade dentro do quarto. De vez em quando alguns reflexos de luzes sobressaíam se pelas frestas da porta. Os estranhos sons se prologaram por horas a fio até que a curiosidade falou mais alto que o medo. Obadian foi bisbilhotar pelo buraco da fechadura e o que viu o deixou boquiaberto. Vários apetrechos metálicos estavam fincados na carne morta de Keiran. Lecain utilizava uma máscara ritualística e tinha um objeto estranho nas mãos. Objeto que Lecain colocou dentro do corpo de Keiran. Exatamente onde ficava o coração que o silbetheron havia arrancado. Em seguida Lecain puxou uma alavanca e raios começaram a cair sobre o corpo de Keiran.
     _Que maldito ritual é este? E pra que? –Pensava Obadian Teron quando Lecain olhou em direção a fechadura e um raio de luz invadiu o quarto e Obadian caiu para trás inconsciente.
     _Acorde, vamos acorde! Falava a voz familiar enquanto davam lhe tapas no ombro. Seus olhos estavam entreabertos e pode notar que estava deitado em uma cama de palha virado em direção a uma janela aberta que demonstrava que já era dia claro lá fora. Obadian virou se esperando ver o rosto do velho Lecain e quase teve um infarto quando viu o rosto inexpressivo de Keiran a lhe encarar.
     Obadian Teron pulou da cama com toda a velocidade que possuía e saiu correndo em busca de sua espada. Percorreu quase toda a casa até que a encontrou perto da porta de saída. Pegou e desembainhou a espada com reflexos ligeiros e ficou com as costas apoiadas na parede e a espada em riste diante de si. Sua respiração estava ofegante e o ritmo do coração estava acelerado. Quando viu Keiran vestido com roupas limpas e andando em sua direção calmamente seu coração acelerou ao ponto de parecer que ia explodir.
     _Para trás fantasma maldito. Afaste-se de mim. –Esbravejou ameaçando golpes de espada em direção do inexpressivo Keiran. Obadian indagava a si mesmo se tudo aquilo não passava de um terrível pesadelo.
     _Não seja medroso como uma criança chorosa seu bastardo. –Disse lhe Lecain que vinha atrás de Keiran com seu andar encurvado segurando um cajado que aparentemente servia apenas para complementar o figurino de um personagem. _E tenha mais respeito com o seu rei.
     _Como pode? Ele estava morto. Eu vi. Eu carreguei seu cadáver por horas. Vi seu coração ser arrancado. –Lamentava Obadian. _Isto não é possível. Você prometeu que eu seria rei. –Esbravejou Obadian agora apontando a espada para Lecain. Seu maldito.
     Obadian pulou em direção a Lecain e fenderia a cabeça dele se Keiran não tivesse pulado na frente e defendido o golpe com o braço. Um sangue escuro e mal cheiroso saiu da ferida que a espada causou no braço de Keiran, mas a espada de Obadian partiu se ao meio deixando Obadian trêmulo de medo.
     _Imbecil. –gritou Lecain. _Não pense que você não é dispensável porque você é.
     _Você prometeu que eu seria rei. Pra que todo o trabalho de armar uma emboscada e matar Keiran se você o trás dos mortos na noite seguinte?
     _Imbecil. Como um mero general poderia se tornar rei? Como o povo aceitaria isso? Não sejas tolo. –Disse Lecain. _Você irá reinar, mas através do novo Keiran.
    _Como assim? O Que queres dizer com isto?
    _Ele quer dizer que o que quiseres diga que eu farei. Disse Keiran a Obadian.
    _Mas, com você ainda vivo como me casarei com Isilda?
    _Você jamais se casará com Isilda, seu tolo. Mas se queres tanto possuí-la peça ao rei Keiran que ele consentirá. Agora preste atenção. –Falou Lecain olhando fixamente os olhos de Obadian. Keiran agora irá obedecê-lo em tudo. Ele será apenas uma ferramenta em suas mãos, mas em segredo. O povo deve vê-lo como o rei. Ainda que seja você que governe. E nunca se esqueça, ele te obedecerá, mas vocês dois obedeceram a mim. Compreendeu?
     _SS.. s..s..sim, sim. –Respondeu meio vacilante Obadian Teron.
Você dirá que foram emboscados por Stavianathos e que graças aos seus esforços conseguiram sair vivos. Neste momento já está implantado um cenário com corpos de soldados markdenos e stavianathos em uma cena de batalha que provarão a veracidade de suas palavras. O rei Keiran irá confirmar. Agora só falta um detalhe.
     _Que detalhe? Perguntou inocentemente Obadian
     _Vocês estavam em uma batalha. Vocês sobreviverão. Mas todos sabem que você não é um espadachim tão habilidoso a ponto de sair de uma batalha sem nenhum golpe, não é mesmo? Keiran tenha a bondade de dar ao nosso amigo alguns hematomas persuasórios. 
     O que se seguiu foi uma sequencia de espancamento. Inicialmente Obadian tentou se defender, mas logo viu que “esse” Keiran era bem mais forte que o normal. Momentos depois Obadian estava estendido no chão com o corpo dolorido, cheio de hematomas e com sangue escorrendo pela boca.
     _E assim me torno rei. –Pensou.

terça-feira, 17 de março de 2015

O Poder dos Lábios

Era uma manhã límpida nos céus de Markden. Do alto do monte Elfir uma suave brisa soprava os cabelos ruivos do rei Keiran. Sua barba protuberante dava lhe o aspecto rude, mas seus olhos verdes refletiam o brilho que os olhos dos homens apaixonados emitem.
“_Espere por mim, meu amado rei.” - Keiran ouviu a razão de seu olhar apaixonado dizer.
_Venha meu amor, estamos quase chegando. Afinal de contas foi você que preferiu subir o monte em vez de passear no pomar de romãs.
_O monte é mais romântico meu rei. E também mais isolado. Eu preciso dizer-lhe coisas interessantes que me foram ditas pelo sábio Lecain.
_O meu único interesse são teus doces beijos minha amada rainha. E já lhe disse que não deves dar credito ao que aquele bruxo diz. Agora ande, falta muito pouco para chegarmos ao topo.
_Meu amado tenha piedade de mim. Não possuo pernas fortes como as tuas. E nem o teu vigor.
As palavras da mulher encheram o coração de Keiran de orgulho. Ele parou e estendeu a mão à rainha que subia ofegante atrás de si. A respiração dela fazia os seios inflarem no decote do vestido azul escuro com bordas douradas que ela vestia. Por alguns momentos o olhar do rei se perdeu naquele decote e quando ele deu por si e ergueu o olhar, a rainha o olhava com um sorriso tímido na face corada entre seus cabelos rubros.

_Homens, permaneçam aqui. Eu e minha rainha subiremos o restante do caminho a sós. –Disse Keiran aos quatro cavaleiros que os escoltavam.
_Sim senhor! –Responderam os cavaleiros em uma sincronia tão exata quanto os pensamentos libidinosos que passaram por suas cabeças ao verem os quadris fartos da rainha remexerem-se enquanto ela subia o restante do monte junto ao rei.
O monte Elfir era conhecido por ser o monte dos encontros amorosos porque no alto dele havia um pequeno planalto com arvores que tinham largas copas que proporcionavam sombras onde os amantes costumavam se deitarem. Também possuía uma linda vista para todo o reino. Dava para enxergar a capital Anarkden ao sul e mais adiante a cidade de Lhotien. Mas naquela manha em especial todo o planalto estava vazio. O rei garantira isto enviando homens mais cedo para esvaziar o terreno para que ele e a rainha pudessem ter privacidade. Os homens comentavam que em breve o rei iria tornar o monte propriedade particular dele de tanto que aquele ato estava se tornando rotineiro.
Quando chegaram ao topo, deitaram embaixo de uma frondosa arvore. A rainha pousou sua cabeça no colo do rei e disse: _Meu amado, tu me amas?
_Claro que amo minha rainha. –Respondeu o rei com a voz mais suave que conseguia emitir.
_Então diga meu nome.                                
_Tu és Isilda, a mais linda mulher do mundo.
_Se realmente me amas meu rei, ouça o que tenho a ti dizer.
_Por favor, minha querida. Não venha com as histórias daquele bruxo traiçoeiro. Eu não confio nele.
_Mas meu rei, Lecain não é traiçoeiro. Ele é bom. Quer apenas salvar nosso povo de uma desgraça.  
_Não é traiçoeiro? Hahaha, não seja tola querida. Como Lecain não é traiçoeiro se ele reporta a você os planos de Cronder sendo que o próprio Lecain é conselheiro de Cronder. Eu preciso mesmo conversar com Cronder sobre esse velho e suas historias que tanto perturbam minha pequena flor.
_Eu não sou tola. –Disse chorando e suplicante a rainha Isilda. _Você tem que acreditar. A maior lealdade de Lecain é para com o bem de todos e Cronder está planejando algo desastroso que trará morte para nosso reino. 
_Me perdoe se a ofendi minha amada, mas o que estás dizendo é simplesmente loucura. Nosso reino e o reino de Stavianath há muito tempo estão em aliança de paz. Inclusive sou amigo de Cronder desde que éramos jovens.
_Tu ainda és jovem meu amado. E bondoso. –Dizia Isilda secando as lágrimas. _Bondoso demais para não perceber quando está sendo enganado. Mas por favor, me ouça.
_O que eu não faria para ver estas lágrimas se transformar em um sorriso minha amada. Diga o que tens a dizer.
Meu senhor lembra-se do “acordo das arvores”? Aquele que fizeste com o rei Cronder sobre o sítio de madeiras que ficava na fronteira com Stavianath?
_Sim. Ficou de acordo que os Stavianathos explorariam a madeira para construir navios de combate e em troca eles nos dariam dez caravelas de guerra e seis embarcações de pescadores. Inclusive este ano já recebemos três caravelas.
_Sim meu rei. Mas estas serão as únicas que receberemos. Os Stavianathos tomaram o sítio das arvores e mataram a família dos Hildebrans, que estavam encarregados de inspecionar a exploração das arvores.
_Isto é um ultraje. Como não fui informado disto? Porque ninguém me colocou a par da situação. –Irou-se o rei.
_Tais acontecimentos ocorreram enquanto estava acamado pela febre, meu rei. Não queria atormentá-lo com esses problemas. Então eu mesma enviei o general Obadian Teron para cuidar do assunto.
_E onde está Teron? Porque não me informou assim que me levantei está manhã?
_Meu rei eu fui informada de que o general já tem tudo sob controle. Os atacantes Stavianathos foram rendidos e os Hildebrans foram vingados. O general está recolhendo provas de que os Stavianathos planejam nos atacar em breve.
_Isto é impossível. Recebi um pedido de auxílio do próprio rei Cronder para proteger Stavianath enquanto seus filhos marcham contra Hellin-Odel para vingarem a morte da irmã pelas mãos do jovem príncipe de Hellin-Odel.
_Óh, como me nauseia a ousadia desse traidor. Lecain me contou todos os planos de Cronder meu amado. Disse que após vencerem os Hellins os Stavianathos marchariam contra nós dominando assim todo o comercio do norte. –A rainha Isilda olhou de lado para o horizonte com um olhar vago e perdido. _Por mais que eu tente convencê-lo, jamais acreditará em mim. Irás preferir confiar no seu “amigo” Cronder do que naquela que te ama mais do que tudo. –Dizendo isso uma lágrima escorreu de seus olhos verdes.
Keiran enxugou a lágrima de Isilda com um dedo enquanto acariciava seu rosto suavemente. _Não diga bobagens minha rainha. Claro que acredito em você. E se houver provas, juro pelos deuses que Cronder e seu reino irão pagar por trair nossa aliança. Eles sentirão a ira de Keiran Dehildren na própria pele. –Enquanto pronunciava as palavras o rosto de Keira se envermelhava se mesclando com sua barba rubra até que a rainha o beijou suavemente.
_Sim meu amado rei. Há provas, você verá. Mas deixe este caso para resolvermos amanhã, pois hoje eu quero sua atenção só para mim. –Os lábios de Isilda percorriam seu corpo à medida que ela ia abrindo sua camisa de seda azul turquesa. Logo sua língua passava por seu peito e mordiscava provocando vermelhidões na pele branca do rei.
_Minha rainha....hurrf,...não devemos....

Um movimento ritmado de vai e vem frenético com os lábios molhados no membro rijo do rei o fez calar a boca e encostar-se ao tronco da arvore atrás de si.