domingo, 31 de maio de 2015

O Rei Renascido



       Já era noite quando o general Obadian Teron avistou as muralhas de Anarkden no horizonte. O corpo gélido de Keiran pesava em seu ombro. O cheiro ocre de sangue coagulado preenchia suas narinas e vez ou outra dava lhe náuseas. Mesmo assim ele continuava a carregar o corpo do falecido rei. Suas roupas estavam encharcadas de sangue escuro e pegajoso. Temera deparar se com animais selvagens por todo o trajeto. Verdade era que até estava esperando por isso, mas como não ocorreu nenhum encontro deu créditos ao seu destino que estava prestes a mudar satisfatoriamente.

      Em breve essa vida de servidão ficará para trás. Serei o novo rei de Markden. –Pensava Obadian Teron. –O próprio Lecain me garantiu os meios para tal fim. Tenho apenas que entregar o corpo do rei para ele que ele cuidará do resto. Ainda bem que esse saco de estrume não teve filhos, senão seria mais complicado. Como pode ter uma mulher daquela como esposa e não ter filhos? Herr... Provavelmente não deveria ser homem mesmo. Pois quando eu for rei vou foder aquela mulher como ela nunca imaginou ser. E vou gerar vários filhos até que ela se acabe de tanto parir. _Obadian colocava um sorriso perverso em seu rosto enquanto devaneava sobre seu possível futuro. Por um momento esqueceu-se do peso incomodo do corpo morto de Keiran.
      Nos céus, as duas luas brilhavam. _Os olhos de Iévine. Pensou quando olhou para o céu. _Pois vá se ferrar Iévine. Falou em voz alta quando virou em uma trilha ao leste da muralha de Anarkden. Antes de tudo deveria levar o corpo de Keiran até Lecain. E Obadian sabia onde encontra-lo. E não era na cidade.
     Meia hora depois, Obadian batia na porta de uma cabana rústica aos arredores da muralha exterior de Anarkden. Era comum que os plebeus construíssem suas cabanas nas proximidades da cidade. Mesmo que fossem sempre as primeiras vítimas quando a cidade era alvo de ataque, a proximidade da muralha dava lhes uma falsa sensação de segurança. Havia muitos anos que Anarkden não sofria qualquer tipo de ataque. Isso fez com que cabanas desse tipo proliferassem ao redor da muralha. O rei havia até decretado que para se viver ao redor da muralha cada cidadão pagar um imposto simbólico de um barão de bronze. Muitos plebeus foram embora viverem aos arredores de outra cidade depois disso, mas a maioria ficou apenas para poderem ser chamados de “cidadãos” em um documento oficial do rei. Verdade era que as moedas que eles pagavam eram as mesmas que o agora morto, rei Keiran lançava aos mesmos plebeus quando passava pelas arruelas da cidade. Adquiria assim a fama de “bondoso rei”. “_Uma forma inteligente de fazer a economia girar.” - lembrou-se que Keiran costumava lhe dizer. –Pois quanto eu for rei vou mandar queimar todo esse “entulho”. –Pensou.
     Foi na terceira batida que um homem alto e magro abriu a porta. _Entre. –Disse secamente.
     _Já era hora. Você faz ideia de quanto tempo estou carregando esse cadáver?
     _Pouco me importa. Traga-o até meu aposento particular.
     A resposta ríspida e direta de Lecain deixou Obadian irado, mas ele se conteve e apenas obedeceu.      –Quem este velho está pensando que é? Posso mata-lo sem dificuldade. Pensava enquanto carregava o corpo de Keiran até um quarto iluminado por luzes mágicas que saíam de objetos estranhos feitos de metal. Uma cama estranha estava no centro do quarto e aparelhos exóticos projetavam garras metálicas e mortíferas na direção dela. A visão daquele ambiente estranho causou certo pavor em Obadian e ele se arrependeu do pensamento que havia tido pouco tempo atrás. Lecain era conhecido como um bruxo pacífico. Que sacrificava sua saúde em prol da paz e em auxilio do próximo. Quando o conheceu e soube de seus planos não havia acreditado que era apenas “pelo bem maior das nações”, como Lecain havia lhe dito. Pensava que o velho queria apenas ouro, mas, agora não tinha certeza do que ele queria. Sempre suspeitara que Lecain fosse um charlatão. –Esse velho se perfuma demais. Ele esconde algo.
     _Coloque o corpo encima desta cama e saia. Aguarde no outro aposento e não entre e nem deixe ninguém entrar. Por nada desse mundo alguém deve entrar aqui, entendeu?



     _Sim senhor. Obadian Teron colocou o corpo inerte de Keiran na cama e saiu mais depressa do que imaginava ser possível. Teve medo de que as garras metálicas fixadas no teto caíssem sobre ele com golpes mortíferos, mas elas não moveram nenhum centímetro.

     Ao sair, Obadian Teron apoderou se de uma garrafa de vinho e desabou exausto em uma poltrona mofada que ficava perto da porta. Após bebericar alguns bons goles do vinho tentou dormir, mas os estranhos sons vindos do quarto onde se encontravam Lecain e o cadáver o deixou assustado demais para pensar em fechar os olhos. Pareciam carne sendo rasgada e gritos de mil demônios das profundezas do mundo. Parecia que ocorria uma tempestade dentro do quarto. De vez em quando alguns reflexos de luzes sobressaíam se pelas frestas da porta. Os estranhos sons se prologaram por horas a fio até que a curiosidade falou mais alto que o medo. Obadian foi bisbilhotar pelo buraco da fechadura e o que viu o deixou boquiaberto. Vários apetrechos metálicos estavam fincados na carne morta de Keiran. Lecain utilizava uma máscara ritualística e tinha um objeto estranho nas mãos. Objeto que Lecain colocou dentro do corpo de Keiran. Exatamente onde ficava o coração que o silbetheron havia arrancado. Em seguida Lecain puxou uma alavanca e raios começaram a cair sobre o corpo de Keiran.
     _Que maldito ritual é este? E pra que? –Pensava Obadian Teron quando Lecain olhou em direção a fechadura e um raio de luz invadiu o quarto e Obadian caiu para trás inconsciente.
     _Acorde, vamos acorde! Falava a voz familiar enquanto davam lhe tapas no ombro. Seus olhos estavam entreabertos e pode notar que estava deitado em uma cama de palha virado em direção a uma janela aberta que demonstrava que já era dia claro lá fora. Obadian virou se esperando ver o rosto do velho Lecain e quase teve um infarto quando viu o rosto inexpressivo de Keiran a lhe encarar.
     Obadian Teron pulou da cama com toda a velocidade que possuía e saiu correndo em busca de sua espada. Percorreu quase toda a casa até que a encontrou perto da porta de saída. Pegou e desembainhou a espada com reflexos ligeiros e ficou com as costas apoiadas na parede e a espada em riste diante de si. Sua respiração estava ofegante e o ritmo do coração estava acelerado. Quando viu Keiran vestido com roupas limpas e andando em sua direção calmamente seu coração acelerou ao ponto de parecer que ia explodir.
     _Para trás fantasma maldito. Afaste-se de mim. –Esbravejou ameaçando golpes de espada em direção do inexpressivo Keiran. Obadian indagava a si mesmo se tudo aquilo não passava de um terrível pesadelo.
     _Não seja medroso como uma criança chorosa seu bastardo. –Disse lhe Lecain que vinha atrás de Keiran com seu andar encurvado segurando um cajado que aparentemente servia apenas para complementar o figurino de um personagem. _E tenha mais respeito com o seu rei.
     _Como pode? Ele estava morto. Eu vi. Eu carreguei seu cadáver por horas. Vi seu coração ser arrancado. –Lamentava Obadian. _Isto não é possível. Você prometeu que eu seria rei. –Esbravejou Obadian agora apontando a espada para Lecain. Seu maldito.
     Obadian pulou em direção a Lecain e fenderia a cabeça dele se Keiran não tivesse pulado na frente e defendido o golpe com o braço. Um sangue escuro e mal cheiroso saiu da ferida que a espada causou no braço de Keiran, mas a espada de Obadian partiu se ao meio deixando Obadian trêmulo de medo.
     _Imbecil. –gritou Lecain. _Não pense que você não é dispensável porque você é.
     _Você prometeu que eu seria rei. Pra que todo o trabalho de armar uma emboscada e matar Keiran se você o trás dos mortos na noite seguinte?
     _Imbecil. Como um mero general poderia se tornar rei? Como o povo aceitaria isso? Não sejas tolo. –Disse Lecain. _Você irá reinar, mas através do novo Keiran.
    _Como assim? O Que queres dizer com isto?
    _Ele quer dizer que o que quiseres diga que eu farei. Disse Keiran a Obadian.
    _Mas, com você ainda vivo como me casarei com Isilda?
    _Você jamais se casará com Isilda, seu tolo. Mas se queres tanto possuí-la peça ao rei Keiran que ele consentirá. Agora preste atenção. –Falou Lecain olhando fixamente os olhos de Obadian. Keiran agora irá obedecê-lo em tudo. Ele será apenas uma ferramenta em suas mãos, mas em segredo. O povo deve vê-lo como o rei. Ainda que seja você que governe. E nunca se esqueça, ele te obedecerá, mas vocês dois obedeceram a mim. Compreendeu?
     _SS.. s..s..sim, sim. –Respondeu meio vacilante Obadian Teron.
Você dirá que foram emboscados por Stavianathos e que graças aos seus esforços conseguiram sair vivos. Neste momento já está implantado um cenário com corpos de soldados markdenos e stavianathos em uma cena de batalha que provarão a veracidade de suas palavras. O rei Keiran irá confirmar. Agora só falta um detalhe.
     _Que detalhe? Perguntou inocentemente Obadian
     _Vocês estavam em uma batalha. Vocês sobreviverão. Mas todos sabem que você não é um espadachim tão habilidoso a ponto de sair de uma batalha sem nenhum golpe, não é mesmo? Keiran tenha a bondade de dar ao nosso amigo alguns hematomas persuasórios. 
     O que se seguiu foi uma sequencia de espancamento. Inicialmente Obadian tentou se defender, mas logo viu que “esse” Keiran era bem mais forte que o normal. Momentos depois Obadian estava estendido no chão com o corpo dolorido, cheio de hematomas e com sangue escorrendo pela boca.
     _E assim me torno rei. –Pensou.

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