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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

E que a minha morte acenda outras formas de vida.

 “A morte me persegue. E hoje ela está vestida em chamas ardentes. Meu sangue ferve com o seu toque e o suor escorre pelo meu corpo. Sinto um calor intenso e não é o calor da batalha. É o calor da luta pela sobrevivência no inferno.”        
_Cuidado!!! Vladislav agarrou Verbena pela cintura e a puxou para junto a uma parede segundos antes de uma imensa tora flamejante caísse sobre ela.     
_Vocês estão bem? –Perguntou Andivari aproximando-se dos dois.

_Sim. Vladislav me salvou. Obrigada. –Disse Verbena esboçando um leve sorriso de agradecimento que escondia o seu olhar sofrido causado pelos tormentos do calor excessivo.
_Temos que encontrar Guntz e a jovem. Deve haver algum outro caminho que nos leve até a outra ala.          
_Temos é que sair desse inferno de Bël. Se continuarmos aqui certamente nós morreremos. –Reclamou Durkan que já mostrava indícios de fadiga causada pelo calor.                    
_Não sairemos daqui sem encontrá-los. Também não podemos voltar por aonde nós vimos. Teremos mais chance de sobrevivermos se permanecermos unidos.      
_Fale por si só. Vamos Drurkali, vamos encontrar uma saída daqui. –Durkan caminhou em direção oposta.    
_Esperem. Podemos encontrar uma saída juntos. –Insistia Andivari.      
_Não precisamos de vocês. –Disse Durkan olhando de soslaio.
Drurkali seguiu seu mestre com um olhar pesaroso no rosto. Os dois já estavam saindo de vista quando Drurkali ouviu Verbena gritar: _Esperem. Encontrei algo. Pode ser uma saída.        
Ao ouvi-la Durkan parou e olhou para traz. Viu Vladislav e Andivari removendo entulhos de uma parede enfumaçada.
_Encontramos uma rachadura na parede. Ela leva até ao outro lado. Podemos quebrar a parede, mas precisamos de ajuda.                 
Drurkali olhou para seu mestre esperançoso.       
_O que nos garante que não encontraremos outra sala dominada pelas chamas? Foi uma loucura entrar aqui. Não quero perder meu tempo ficando aqui dentro.  
_Alteza, se me permite dizer, o lugar por onde estamos já está dominado pelas chamas. Nós vimos quando a parte frontal do templo desmoronou. Não conseguiremos passar por lá. Temos que encontrar outra saída. E está pode ser uma opção.
Após refletir alguns segundos Durkan finalmente disse: _Tens razão leal companheiro. –E dirigindo-se a Verbena concluiu:_ Vamos ajudá-los a atravessar a parede mulher, mas depois seguiremos nosso próprio caminho. Ou vocês nos seguem para fora daqui ou podem morrer procurando aqueles dois infelizes.
_Que seja. –Afirmou Verbena. _Mas ajude-nos a atravessar essa parede antes que o teto sobre nós caia sobre nossas cabeças.            
Durkan e Drurkali aproximaram-se da fenda e juntos com Andivari e Vladislav começaram a golpear e remover entulhos. Logo que conseguiram abrir espaço suficiente, Verbena atravessou. Eles ainda teriam que quebrar mais um pouco até que também conseguissem atravessar.  
_O que você vê Verbena? Há alguma saída? Corredores, portas, qualquer coisa? Perguntou Andivari esperançoso.
_Há muita fumaça, mas não há chamas. É um imenso salão oval. Possui algo no meio... Vou averiguar. –Os passos de Verbena ecoaram pelo salão.   
_Espere! Estamos quase conseguindo atravessar. Ao notar que Verbena não lhe dera ouvidos, Andivari começou a empenhar com mais vigor na escavação da parede. Logo os quatro já podiam atravessar. Durkan foi o primeiro que atravessou. Seguido de Andivari, Vladislav e por fim, o gigante de ébano, Drurkali.
_É um poço. Cheio de água límpida e fresca. –Disse Verbena ao vê-los. Ela havia encharcado suas vestes com a água do poço e agora molhava os cabelos. A água amenizava o calor e trazia certo alívio. Logo todos também se refrescavam com a água do poço.  
O poço possuía aproximadamente dois metros e meio de raio. Ficava no centro do salão oval, que era escuro. Não havia janelas no salão e a iluminação provinha de velas e um lustre que balançava acima do poço. Ainda ouvia se estrondos e desmoronamentos ao redor do salão que provavelmente era localizado no centro do templo. O salão possuía duas portas. Uma em direção ao sul e outra ao norte.
Após alguns momentos de descanso, Andivari perguntou: _Qual porta seguiremos?        
_Irei pela do norte. –Afirmou Durkan. –E quem quiser seguir-me que aperte os passos, pois não suporto mais esse lugar.
_Certo Durkan. Mas procuraremos por Guntz, a jovem e as crianças pelas quais viemos até aqui. –Afirmou convicto Andivari.
_Essas crianças já estão mortas antes mesmo de entrarmos aqui. _Resmungou Durkan. –Eu avisei desde o inicio que era loucura entrar aqui.
_Não tem como você saber...
De repente um grito ecoou pelo salão vindo da porta norte.
 “Iiaarrhhhg!
_O que foi isso?
_Guntz. Afirmou convicta Verbena.    
Todos correram em direção à porta. Adentraram um corredor e prosseguiram por uns quinze metros até que um estrondo como um trovão seguido por uma tempestade de fumaça e poeira veio ao encontro deles. Após recuperarem da onda de poeira, recomeçaram a seguir a direção de onde havia vindo o grito. Depararam com outro salão parcialmente destruído, bastante semelhante ao outro. Todavia no meio deste encontrava se um monte de pedras e entulhos que haviam desabado do teto.
_Outro desmoronamento. –Confirmou Durkan.
_Vejam! –Chamou a atenção Vladislav. _Uma mão entre os destroços.
_Vamos! Ajudem-me. Logo todos retiravam blocos de pedras e vigas de madeira ou até mesmo peças de mármore. Aos poucos iam descobrindo o corpo. Ao terminarem encontraram Guntz jaz sem vida. Também encontraram o corpo de Mirla, a jovem sacerdotisa.
_Pobre Guntz.
Todos mantiveram a cabeça baixa e em silencio por alguns segundos. Lágrimas brotaram dos olhos de Verbena e por um momento, os cinco esqueceram-se dos males que os cercavam naquele lugar. Foi quando Drurkali percebeu algo.
_Ouçam... estou ouvindo gemidos. –Drurkali avançou novamente sobre o monte de entulho e destroços e começou a cavar. Ao remover uma enorme pedra encontrou uma grade de ferro que trancava um calabouço e dentro do calabouço viu vultos e ruídos.  
_São as crianças. Elas estão vivas.
Todos correram e começaram a remover o entulho de cima da grade.
_Aguentem firme crianças. Logo tiraremos vocês daí.
Eram ao todo seis crianças. Estavam com escoriações pelo corpo e uma delas jazia imóvel no chão. Por um momento exibiram um olhar esperançoso, mas um tremor e um novo desmoronamento fizeram com que se refugiassem no canto da parede do calabouço. Após o desmoronamento os cinco heróis retornaram aos esforços para libertarem as crianças.
_Parem com isso! –Gritou uma das crianças. _Vocês jamais conseguiram tirar esses destroços e romperem as correntes que prendem a grade antes que o resto do teto caia sobre vocês.
_O que você está dizendo garoto. Nós vamos tirar todos vocês daí. 
_Não. Não vão. Vão morrer assim como Mirla e o amigo dela. Vão embora agora e honrem a Deusa lutando por suas vidas.
_Não diga tolices garoto. Você não sabe o q... –Um novo desmoronamento interrompeu Andivari e desta vez um enorme bloco de pedra caiu em cima dos pés de Drurkali que caiu no chão gemendo de dor.  
_Eu estou falando... Vão embora. Salvem-se. Salvem-se. –Logo as crianças começaram a gritar em coro:
 _Salvem-se! Salvem-se! Salvem-se!
_Andivari, essas crianças tem razão. Com Drurkali ferido jamais conseguiremos libertá-las em tempo hábil. O teto está desabando sobre nossas cabeças.
_Não diga tolices covarde! Vamos salvar essas crianças. Além do mais Mirla disse que havia uma saída dentro dos calabouços.
_Mas ela está trancada e não tem como vocês romper a porta. –Disse uma jovem garotinha de dentro do calabouço.
_Há outra saída. –Afirmou outro garoto que tinha aproximadamente uns sete anos. _O poço do salão de orações. Se vocês mergulharem nele sairão em um rio subterrâneo que leva as cavernas antigas.
_É verdade! –Afirmou outra criança. _O bondoso Iamark nos ensinava que se algum dia algo ameaçasse nossas vidas e não houvesse saídas do templo, deveríamos mergulhar no poço e a Deusa nos guiaria para a liberdade.
_Não vamos desistir de vocês. –Insistiu Verbena.
_Sou Fildor, filho de Fiantys, sumo sacerdote de Iévine neste templo. Agradecemos a Iévine a vida que tivemos e nos preparamos para a hora da nossa morte. Vão e salvem suas vidas. Não a tempo a perder. Se eu puder fazer um pedido, peço apenas que me dê algo para dar um fim rápido a isso tudo.
_Pare de falar tolices garoto. Vamos Vladislav, Durkan, vamos tirar essas... –Andivari viu apenas de relance quando o punhal de Durkan passou pela grade do calabouço fazendo um “clank” quando o cabo da lamina bateu no metal da grade e foi parar nas mãos do garoto.
_DUURRKANNN, SEU MALDITO. O QUE VOÇÊ FEZ? –Andivari desferiu um cruzado de direita no queixo do príncipe cananor que o lançou longe. _Não faça isso garoto... vamos tirar vocês daí.
Um a um as crianças começaram a caminhar em direção a Fildor que aparentemente era o mais velho do grupo.
“_Agradeço a Iévine pela vida que tive. E que a minha morte acenda outras formas de vida.” - Após dizerem estas palavras Fildor passava a lamina em suas gargantas de forma rápida e habilidosa.
_Nããão! Pare com essa loucura. Nós vamos salvá-los. –Andivari puxava aos solavancos a corrente da grade. Verbena chorava em prantos e batia sua espada na corrente, mas nada parecia romper o metal. Seja lá qual metal fosse parecia possuir propriedades mágicas.
“_Agradeço a Iévine pela vida que tive. E que a minha morte acenda outras formas de vida.” - Três corpos jaziam no chão e o sangue escorria abundantemente entre eles.
Andivari estava de olhos arregalados. Balbuciava palavras sem nexo e a cicatriz de seu rosto parecia está sangrando. As veias de seu braço pareciam que iam explodir.
Quando a ultima criança, de aparentemente cinco anos aproximou se de Fildor, com os olhos tristes e lacrimejados começou a proferir as palavras. Vladislav que até então estava atônito se manifestou: _Garoto, o que está fazendo não é desejo de Iévine. Matar inocentes não é certo. A morte persegue a mim. Não persegue vocês. Prometo que vamos salvá-los.
_Não. –Respondeu secamente o garoto. _Não vai. –Fildor pegou sua lâmina e rasgou a garganta do garotinho. Logo em seguida olhou para Vladislav e disse: _A morte persegue a todos nós. E um dia ela chega a todos nós para que a nossa morte gere mais vida e Iévine seja glorificada. Quando os corpos jazem nos campos de batalha os vermes festejam e se banqueteiam. Eles também possuem vida, o dom de Iévine.   
Um forte estrondo fez ruir grande parte do teto fazendo com que todos tivessem que pular para os lados. Quando a fumaça e poeira abaixou um pouco viram que o calabouço estava soterrado novamente.
_Durkan, maldito. _Andivari pulou sobre Durkan e começou a esmurrá-lo na cabeça. O Príncipe cambaleou e caiu novamente. Andivari continuou a bater até que um barulho de osso partindo ecoou. Ainda assim Andivari continuou a esmurrar até que o rosto de Durkan não passava de uma pasta vermelha. Quando recobrou o juízo e se reergueu viu Drurkali atrás de si apoiado em uma só perna pronto para atacá-lo. Contudo o gigante de ébano ao notar que seu protegido estava morto sentou-se ao lado do corpo e disse: _Vão!
Sem dizerem uma palavra os três correram em direção ao corredor que levava ao poço deixando Drurkali ao lado do cadáver de Durkan. Tanto Vladislav quanto Verbena sabia que Drurkali poderia ter impedido Andivari. Mas os três seguiram silenciosos e ao chegarem ao poço tomaram fôlego e um de cada vez mergulhou.

Seus pulmões pareciam que iam explodir quando finalmente saíram em um rio subterrâneo. Ao chegarem à margem do rio depararam com uma enorme caverna. Podia se vê parte dos pilares que sustentavam o templo. Uma leva luz vinha de mais adiante de onde parecia ser uma saída. Quando por fim encontraram a fonte da luz viram uma caverna que dava saída para um bosque. Eles estavam fora da cidade a umas três milhas de distancia.  

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Sangue e Fogo

Durkan saiu de seu aposento seguido de Andivari e encontrou Drurkali e os dois seguidores de Andivari com mais uma nova figura distinta, o meio-elfo Guntz. Verbena estava com a espada sacada e olhava para Vladslav como quem não soubesse o que fazer. Guntz recuperava o folego enquanto que Vladslav e Drurkali olhavam um para o outro como quem está prestes a deixar as diferenças de lado para enfrentarem uma peleja maior.
Drurkali, temos que salvar o rei. Prometi a Crane e seus irmãos que cuidaria de seu pai. _Disse Durkan enrolando as correntes de combate estrategicamente eu seus braços.
Vamos com eles. Tentaremos salvar o máximo de pessoas no caminho. _Dizia Andivari a seus companheiros. _Mas estejam cientes que esta batalha já está perdida. O inimigo já adentrou os portões da cidade e a guarda foi imprudentemente desfocada quando Crane e seus irmãos reuniram os soldados para marcharem contra Hellin-Odel.
Enquanto corriam por corredores longos e sombrios, os seis ouviam gritos de dor e pavor atravessando as paredes maciças do castelo. Vez ou outra, os corredores eram iluminados por tochas que ficavam nas laterais da parede. Quando passavam correndo por elas, as sombras emitiam imagens fantasmagóricas na parede que unindo se aos gritos e gemidos vindos do outro lado, criavam um cenário dantesco.
Ao findar o corredor, depararam com o enorme salão onde outrora havia sido festejado o aniversário da falecida princesa Kathrina. Bancos de madeira estavam tombados pelo salão. Uma grande mesa de madeira havia sido tombada provavelmente para servir de proteção aos três soldados que agora jaziam cravejados por flechas. No canto esquerdo do salão uma labareda começava a se formar ao pé da cortina. Indiferente a tudo isso, um grupo de soldados abusava de uma jovem que soluçava em apuros. Dois homens a segurava pelos braços enquanto que outro, gordo de barbas ruivas e dentes amarelados, gargalhava enquanto a penetrava por trás. Sua gargalhada deu lugar a um som hediondo quando Drurkali esmagou seu crânio com um golpe de duas mãos que fez os olhos do soldado saltarem de suas órbitas. Os outros dois olharam com espanto o gigante negro surgir por trás do corpo de seu falecido companheiro de guerra, mas antes mesmo de alcançarem as suas armas, Vladslav e Andivari caíram sobre eles com fortes golpes de espada. Um teve a cabeça separada do corpo e o outro teve apenas tempo de soltar um grito de pavor que foi abafado com engasgos de sangue que fluíram de sua boca quando a espada de Andivari atravessou seu peito. Verbena retirou sua capa e entregou a assustada moça que estava com o vestido destruído.     
_Não se preocupe linda jovem. Está tudo bem agora. -Falou Guntz com a voz carregada de compaixão. _Nós vamos tirá-la daqui. Qual é seu nome?
Durkan estava encostado à quina da porta que dava para o pátio. Olhava com cuidado o ambiente hostil lá fora. Andivari se aproximou e também olhou. Soldados corriam atrás de cidadãos comuns e os matavam sem misericórdia. Os poucos que tentavam ainda criar uma resistência eram massacrados. As chamas se espalhavam pelas casas. Sangue escorria pelas ruas. Soldados montados a cavalos perseguiam cidadãos desesperados. Do outro lado do pátio a porta de um castelo se abriu. De dentro saiu um homem altivo, com uma armadura negra e ombreiras em forma de caveiras. Logo atrás dele surgiu o rei Cronder com as mãos amarradas sendo escoltado por cinco soldados com armaduras completas. As armaduras eram negras e polidas e usavam um manto branco por cima delas. O rei possuía um corte na cabeça por onde o sangue escorria sujando suas vestes de linho. Sua coroa estava na mão do primeiro soldado que saiu. Um soldado correu em uma direção e minutos depois um grupo de aproximadamente sessenta cavaleiros apareceram fazendo barulho e levantando poeira com os galopes de suas montarias. Os homens trocaram algumas palavras e logo acorrentaram o rei. Em seguida cavalgaram em direção à praça principal.
_Temos que salvá-lo. –Disse Durkan. _Estão o levando para a morte.
_Não a nada que possamos fazer Durkan. –Afirmou Andivari.
_Desde quando se tornou um covarde Andivari. É por isso que não presta lealdade a nenhum rei ou senhor? _Por isso se tornou um cavaleiro andante?
_Não seja tolo. Não podemos lutar contra um exercito inteiro.
_A morte me acompanha. E se hoje for o dia em que ela me apanhará que assim seja. –Afirmou Vladslav erguendo a espada acima da cabeça.
_Pelo menos um entre vocês possui colhões. As moças podem se esconderem se quiserem, mas eu prometi proteger o rei e é isso que farei.
_Não seja impulsivo Durkan. Você irá matar a si mesmo e a todos nós. - Manifestou Verbena.
_Meu senhor, eu creio que eles estejam certos. – Eu jurei protege-lo e é o que farei. –Falou Drurkali- Mas se formos em direção ao rei é morte certa.
De repente a jovem molestada se aproximou deles e disse:
_Por favor, salvem minhas crianças. Estávamos todos no templo de Iévine quando os soldados atacaram. Antes de me pegarem, eles violentaram outras moças e as crianças eles jogaram nos subterrâneos do templo e trancaram-nas lá dentro. A última vez que vi o templo ele estava começando a pegar fogo.
_O rei já está condenado Durkan, mas podemos salvar estas crianças.
Durkan lançou um olhar imparcial a cada um deles. Então olhou a jovem enrolada na capa de Verbena. Ela estava com hematomas no corpo e lágrimas nos olhos.
_Sabes que estas crianças podem já estarem mortas. –Afirmou.
_O rei também. –Retrucou a moça.
_Vamos. Mostre-nos o caminho.
Os sete saíram correndo beirando as paredes e aproveitando a camuflagem da fumaça. Passaram por entre becos sujos e ruas vermelhas com corpos espalhados pelo chão. Por fim estavam diante de um enorme templo, com uns vinte metros de altura. A parte lateral esquerda já estava toda dominada pelas chamas e começava a desmoronar fazendo um estrondo como um trovão.
_Entrar aí sim é morte certa. –Pestanejou Durkan.
_Por favor. Os calabouços do templo possuem um caminho que leva para fora da cidade. Temos que tentar encontrar as crianças e sair por lá. –Choramingou a moça.


_Muito conveniente de sua parte dizer isto moça. –Resmungava Durkan quando Andivari e seus amigos passaram por ele.
_Vamos. –Dizia Andivari. _É nossa melhor chance.
_Quem é o covarde agora hein?!- Provocou Guntz, o meio-elfo.
Quando entraram no salão principal sentiram o sangue ferver por causa do calor. A moça correu por entre os escombros e sumiu na fumaça. Guntz e Verbena a seguiram tampando o nariz com a palma da mão para não inalarem muita fumaça. Logo atrás deles estavam Andivari e Vladslav.
_Esperem. –gritou Durkan adentrando no aposento acompanhado de seu guarda Drurkali. –Nós também iremos.

O fogo subia pelas paredes e se espalhava pelo teto. O calor era insuportável. Um barulho ensurdecedor foi causado pelo desmoronamento de uma coluna e os sete personagens sumiram entre as chamas, fumaça e poeira.

sábado, 13 de setembro de 2014

Injustiças

Durkan estava inquieto em seu aposento particular oferecido pelo rei Cronder durante sua estadia em Stavianath. Um salão enorme e aconchegante. Com tapetes de peles de leopardo no chão, incensos aromáticos pairando no ar e cortinas brancas com belas imagens pintadas a mão por famosos artistas markdenos. Ao lado direito do recinto, entre duas pilastras douradas, duas mulheres mulatas se divertiam entre risinhos amontoadas em almofadas de plumas de ganso e lençóis de seda. Seus corpos brilhavam devido o óleo perfumado que havia sido passado por elas mesmas. Os olhos amendoados e os lábios carnudos eram um convite para o prazer. Prazer que Durkan parecia desprezar naquele momento. Agarrado em sua taça de vinho, bebia cada gole com mais ânsia que o anterior.     
_Venha para junto de nós meu senhor. – chamou Zíbia, a moça mais alta dentre as duas concubinas de Durkan.
_Sim, meu amado. Nós estamos ardendo de desejo. –Falou a outra com a voz sibilante. Monnah era seu nome. Possuía os olhos levemente puxados e argolas douradas nas orelhas.
_Pois que ardam nos infernos de Bel. –Vociferou Durkan. _Saiam daqui. –disse com a voz carregada de desprezo.
O Cananor

As duas levantaram correndo e envergonhadas dirigiram se a porta. Do lado de fora encontraram o gigante Drurkali, imóvel como uma estátua, ao lado da porta. Ele olhou para as moças com um olhar piedoso. Embora somente quem o conhecesse de longa data teria percebido.
De frente a uma enorme janela com vista para a muralha antes do mar, Durkan permanecia vislumbrando a vista da estrela Álax se pondo no mar. Era o fim de um dia rubro. O seu inimigo havia sido morto naquela tarde e a mulher que ele tanto havia desejado havia sido vingada. A “justiça” havia sido feita. Mas porque então aquela estranha sensação que parecia lhe embrulhar o estômago?
Durkan que estava com o dorso nu, passou a mão na enorme ferida em seu peito que estava por findar o período de cicatrização. Começou a relembrar da noite em que Gamblior assassinara Kathrina. Tentara impedi-lo de fugir, mas o golpe que sofrera havia sido grave. Quando Drurkali chegou e pôs a socorrê-lo, tentou ordená-lo para perseguir o assassino, mas suas palavras saíram apenas como balbucios inteligíveis. Pela manha, mesmo com a reprovação dos médicos e de seu curandeiro particular, partiu em viagem junto com os irmãos de Kathrina para capturar Gamblior. Quando eles encontraram Gamblior e seus soldados, lutou contra a guarda de Gamblior e matou muitos soldados. Estava possuído pela fúria. Sua ferida reabrira no calor da batalha e ele nem percebera. Quando retornaram para Stavianath com Gamblior como prisioneiro, sentia dores terríveis. Teve que ficar de cama por dias lutando contra a febre que o assolou. Quando os irmãos de Kathrina partiram para pelejar contra os Hellins não pode ir, pois estava prostrado numa cama.
Durkan foi acordado de seu devaneio com o som de uma discussão que vinha do corredor. Ao abrir a porta viu Drurkali segurar uma moça pelo pescoço e praguejar contra um homem corpulento enquanto outro homem já rolava no chão de dor devido a um golpe que lhe fora desferido no abdômen.  Logo percebeu se tratar de Andivari e seus companheiros.
_Eu disse que ninguém vai passar! –gritou Drurkali arremessando a moça em cima de Andivari que com maestria apoiou o corpo da jovem e conseguiu impedi-la de se chocar contra o chão.
 Vladslav que se recuperava do golpe que recebera no abdômen, levantara do chão e já possuía a espada em riste nas mãos quando por fim Durkan interveio.
_ O que está acontecendo aqui?
_Eles queriam incomodá-los meu senhor. O jovem loiro quis passar por mim e eu o impedi. –respondeu Drurkali com sua voz de trovão. –Ninguém passará a não ser que o senhor permita.
_Você precisa saber ouvir umas verdades maldito. – vociferou Vladslav.
_Não fale comigo como se eu você qualquer um, seu carrapato de vira-latas. –Durkan ergueu o peito como um galo de briga enquanto falava. –Eu sou Durkan, príncipe de Cananor, filho de Hurlan, Rei das dos mares de areias e de sal. Não permitirei ofensas vindas de ninguém. Fale assim de novo e o enforcarei com minhas próprias mãos.
_Veremos então... cana.. .
_Parem. –gritou Andivari intervindo. –não viemos aqui para pelejar. Apenas queremos esclarecer algumas questões. Pois enfrentamos o perigo em florestas sombrias para inocentar Gamblior e nem ao menos esperaram por nossa chegada.
Refletindo nas palavras que soaram como um pedido de compreensão e notando uma cicatriz que Andivari agora trazia no rosto, Durkan finalmente acalmou-se e disse:
_Deixe que Andivari entre. Os outros dois aguardem aqui fora. –virou as costas e adentrou no seu quarto.
_Senhor... Murmurou Verbena, a moça que havia sido arremessada por Drurkali.
_Tudo bem Verbena. Fique aqui com Vladslav e me aguardem.
Quando Andivari passou pela porta, Drurkali se pôs na frente da porta como uma muralha negra.
Durkan estendeu a mão até um odre de vinho e serviu uma taça ornamentada com joias e após estendê-la a Andivari completou sua própria taça.
Então... o que verdadeiramente vieres procurar aqui?-perguntou o Cananor. –Sabes que o que eu tinha de dizer eu já disse no julgamento.
Esse julgamento foi injusto. –protestou Andivari. –Vocês não deram o direito ao...
_Injusto? –Gritou Durkan. –vou te falar de injustiça. Injustiça foi aquele animal tirar a vida da bela Kathrina. Uma jovem cheia de vida. Injusto é quando todo o povo de uma nação sofre a perda de uma amada e bondosa princesa... eu... amava aquela mulher.
_Amava? –questionou Andivari falando ao mesmo tom de Durkan. – O que sabes de amor? Estava agora a pouco rodeado de mulheres. Sempre esteve. É bem sabido em todos os reinos que possui mais esposas do que se pode manter em um único castelo. Falas-me de amor, mas tudo o que via na adorável Kathrina era a aparência. Mas meu caro, a aparência é passageira. Seja ela bela ou feia. É quando a morte come a carne de nossos ossos é que vemos que somos todos iguais. Mas Gamblior... -entristeceu ao pronunciar o nome do falecido amigo. – esse sim amava Kathrina. Viajei com ele durante dias e todas as manhas ele falava de Kathrina. Contou-me suas historias de amor. Ele não tinha olhos para outra mulher. Havia muito tempo que eu não via aquele olhar. Olhar de quem ama. Mas o que ocorreu com ele foi uma injustiça. A sim, uma injustiça digna de ser chamada de ira dos deuses. Não bastasse a dor da perda de seu amor ainda é acusado de assassiná-la. Diga-me Durkan?! –Andivari segurou o pescoço de Durkan e o apertou contra a parede. Nós fomos atrás de Lecain, aquele que possui a visão do passado e do futuro. –Andivari aumentava a voz à medida que falava. – Ele disse que você estaria confuso e atormentado por algum fantasma em sua mente. Esse fantasma seria a resposta. Diga o que tem lhe atormentado? Diga.
Andivari vociferava alto e espuma escorria de sua boca. Durkan estava atônito. Olhou o rosto de Andivari que possuía uma recente ferida que lhe cortava a face do alto da testa até abaixo do nariz, no lado esquerdo. A ferida possuía uma vermelhidão dolorosa até de vê. _A cicatriz... –balbuciou por fim.
_O que tem ela? Eu a ganhei enfrentando uma criatura na floresta. –Comentou Andivari sem soltar o pescoço de Durkan. –enquanto buscávamos por Lecain. Não mude de assunto Cananor. O que o atormenta?
Durkan de um forte empurrão em Andivari o obrigando a largar lhe o pescoço. Deu um gole no vinho e começou a dizer. _A cicatriz... -sentou se numa cadeira. –lembro-me que na noite que Kathrina foi assassinada eu lutei contra seu assassino. Estava escuro, mas eu reconheci a fisionomia de Gamblior. Era ele, eu sei. Eu o ataquei com minha corrente. As três pontas mortíferas cortaram o ar em sua direção. Lancei as em sua direção como sempre fiz. Miro o seu rosto para tirar lhe os reflexos com uma ponta e com as outras duas miro seus órgãos vitais. As três pontas o acertaram. Uma no peito e outra no abdômen. Mas não foram fatais. Ele conseguiu desviar...
_A terceira ponta? A que foi direcionada ao seu rosto?- questionava Andivari-.
_O acertou. Teria deixado uma cicatriz como esta sua. –Confessou Durkan.
_Mas em momento algum Gamblior apresentou cicatrizes no rosto. –Falava Andivari indignado. Não é mesmo?
Nesse momento ouve um estrondo vindo da rua. Os dois se entreolharam. Ouviram gritos e cascos de cavalos batendo forte no chão de pedra. Muitos cavalos.
Do lado de fora Drurkali estava confuso com a chegada escandalosa de um pequeno homenzinho de cabelos vermelhos e feições quase que femininas para seu gosto.
_Vesser, o que está acontecendo? –perguntou lhe Verbena.
_O jovem mestiço de humanos com os senhores do ar estava mais pálido do que o naturalmente era.
_Acalme-se. –Vladslav já estava ficando impaciente.
Vesser Guntz estava arfando nas palavras quando por fim conseguiu falar. _Nas ruas, soldados para todos os lados. Matando, pilhando e saqueando. Não estão poupando nem crianças. –seus olhos estavam lacrimejados de pavor. Por fim, concluiu. _Estamos no meio de uma guerra.

Dentro do aposento Andivari e Durkan olhavam fixos para as ruas do auto da sacada. Correria, gritaria e explosões. Sangue, morte e dor. _Guerra. –murmurou Andivari.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A Cor da Morte

Era uma linda manhã em Shadarph, atual capital de Stavianath. O quarto de Kathrina ficava no alto de uma torre com vista para o mar. Todas as manhãs ela acordava com o brilho de Álax entrando por sua janela. O frescor dos raios suavemente quentes que aqueciam sua pele alva dava lhe sempre ânimos para se levantar. Contudo nesse dia em especial, antes mesmo de Álax aparecer, ela já estava acordada. Batia na porta de sua criada gritando:
 _ Shae, Shae... Acorda. É hoje a grande festa! Temos que fazer um belo penteado em meus cabelos.
_Que é isso menina. Ainda é muito cedo. Falou a velha senhora que desde criança Kathrina aprendera a amar como uma segunda mãe.
_Eu sei. Mas quero está bem bonita para quando meu amado Gamblior chegar. Dizia Kathrina enquanto puxava Shae pelas mãos escada acima até seu quarto. “_Aquele seria um dia cansativo.” _Pensava a velha senhora.
Nos primeiros momentos de claridade do dia, no “período de Fabus”, por volta da décima terceira hora, Kathrina já estava debruçada na sacada da janela do salão principal de seu palácio que dava vista para os portões principais da cidade. Os príncipes, duquese lordes de todos os cantos do continente começaram a chegar pela décima quinta hora do dia. A cada momento uma trombeta tocava anunciando a chegada de algum nobre. A população de Shadarph saíra toda para a rua para presenciar um verdadeiro desfile de elegância e nobreza. Lordes de Markden, opríncipede Cananor com seus servos seminus, duques de Thur-Hurker, entre outros. Todos estavam interessados na mão da princesa Kathrina, filha de Cronder, o Bravo. Mas, para Kathrina apenas um jovem príncipe lhe interessava. Seu nome era Gamblior, príncipe de Hellin-Odel, filho de Fandron, o forte. Kathrina se lembrava de sua adolescência, quando acompanhara seu pai em uma viagem marítima até o reino de Hellin-Odel.
Gamblior chegou acompanhado com uma escolta de cinquenta homens. Com suas armaduras prateadas e reluzentes e seus mantos vermelho sangue chamavam a atenção por suas enormes espadas que traziam dependuradas nas costas. Quanto adentrou a praça principal, o jovem príncipe olhou para o povo como que procurasse uma pessoa específica em meio à multidão ou no alto de alguma janela. Quando finalmente avistou Kathrina no parapeito de uma sacada, curvou-se em homenagem e de trás de sua espessa capa retirou uma rosa vermelha e a lançou para Kathrina que mais que depressa a segurou com um sorriso encantador e apaixonado que deixou os outros convidados aturdidos de inveja.
Apesar adentrar a cidade juntamente com sua comitiva, Durkan, príncipe de Cananor já estava na cidade há dois dias. Toda aquela encenação não passava de um plano previamente arquitetado. Não queria que os outros nobres soubessem que ele já estava na cidade há dois dias. Viera na frente de seus homens acompanhado apenas por seu guarda costas Drurkali, o escorpião negro, como era chamado. Nestes dois dias estivera conversando com Cronder, o bravo, sobre uma possível união entre seus povos. Em como ele destacaria os melhores capitães marítimos de seu reino para treinar os homens de Stavianath na arte da navegação.Também criou uma forte amizade com os irmãos Crane e Cron falando sobre as mulheres negras de Cananor e suas habilidades de satisfazer os homens. “_Principalmente os forasteiros!”. Dizia ele. Apenas Adrien, dos três irmãos não demonstrou interesse no falatório de Durkan. Fato é que em apenas dois dias Durkan havia convencido os dois irmãos a tentarem convencer Kathrina a escolhê-lo como marido. Nenhum deles prometeu intervir no livre arbítrio da donzela, mas disseram dar bons testemunhos do príncipe negro.
Naquela manhã o rei Cronder estava visivelmente ansioso. As palavras do bruxo Lecain ainda ecoavam em sua mente. “_Meu rei. Estou saindo para meu retiro anual.” _Dizia o mago. “_Mas devo adverti-lo sobre o casamento de sua filha. Eis que vi a morte nesse casamento. E aquele que trás a morte para dentro de seu reino é aquele que possui os cabelos de ouro. Você deve cancelar esse casamento”.
Obviamente Lecain estava falando de Gamblior. O príncipe por quem Kathrina é perdidamente apaixonada. Como convencê-la a arranjar outro marido? Pensava o rei cabisbaixo enquanto esperava o soldado que enviara para trazer sua filha até ele.
A porta se abriu com um estrondo e antes mesmo que o soldado pudesse anuncia-la, Kathrina já havia corrido para os braços do pai.
_Pai, pai, meu adorado pai. Eu estou tão feliz! Dizia a jovem alegremente. Aquelas palavras deixavam o rei consternado. Pois sabia que logo aquele sorriso se verteria em lágrimas.
_Acalma-te minha adorável filha. Tenho que tratar contigo um assunto delicado.
_ O que é meu amado pai.
_É sobre seu casamento. Sobre tua escolha.
_Ahh... sobre isso? Não é segredo para ninguém mais quem eu escolherei né pai. Não vai querer opinar na minha escolha como fizeram meus irmãos, não é mesmo pai?! _Kathrina olhou o pai com o semblante curioso e temeroso.
_Na verdade vou. Respondeu rispidamente o rei. Tenho que lhe pedir para que não escolha Gamblior como esposo.
_Mas por quê? Por acaso me odeias assim de uma hora para outra? Tu sabes que eu o amo pai... _Lamentava Kathrina já com os olhos molhados.
_Eu sinto muito minha filha, mas temo pela sua vida. Fui advertido por Lecain que essa união entre vocês dois terminaria em tragédia. Entenda minha filha, só te peço que escolhas outro para ser seu marido.
_Nããããoo! _Gritou desesperadamente Kathrina._ Se for assim eu prefiro dedicar-me ao deus observador. Não vou me casar com ninguém.
_Deixe de pirraça minha filha. _Falou o rei com voz de trovão. _Já não eres mais criança. É agora uma mulher. E em breve serás uma rainha. Então aceite o teu destino com dignidade e escolha um marido que lhe queira bem. Não um que... _o rei fez uma pausa como que procurasse as palavras certas para dizer. ...que simplesmente lhe traga a morte. _Explodiram lhe as palavras da boca.
_Pois saibas pai. _Falou Kathrina moderando a respiração. _Que acabas de tirar-me a razão de viver.

Kathrina saiu dos aposentos de seu pai correndo e em prantos. Já não era mais aquela bela jovem sorridente. Seu rosto inchara e seus olhos ficaram rubros. Andara cambaleante e com deselegância durante o restante do dia. Ao chegar ao seu quarto ordenou a Shae que enviasse um recado a Gamblior. A amável senhora viu as feições tristonhas da princesa, mas quando fez menção de perguntar algo foi paralisada pelo olhar reprovador de Kathrina e logo saiu a cumprir seu dever.
Gamblior e Kathrina se encontraram ao entardecer debaixo da “ponte de ferro”. Assim era chamada a ponte que levava ao portão sul da cidade. Dizem que há muitos anos atrás um rio de aguas cristalinas passava por debaixo da ponte. Mas agora o rio secou se tornando um caminho por onde os enamorados costumam caminhar. Talvez por ser longe das casas e por manter sempre um gramado verde onde outrora era o leito do rio. Gamblior chegara animado ao encontro, mas logo que soube da noticia de que Kathrina não o escolheria como esposo seu semblante ficou abatido. Kathrina quis explicar os seus motivos, mas Gamblior não lhe deu tempo para explicações. “_Não me importa tuas razões princesa.” _Disse ele. ”A tua escolha já está feita. Então sejas feliz.” Gamblior saiu do local com o orgulho ferido e deixou a pobre princesa em prantos inconsoláveis.                         
Naquela noite houve uma grande festa. Todos pareciam se divertir. Exceto o príncipe Gamblior e a princesa Kathrina. Ao ver o principal concorrente cabisbaixo, Durkan, príncipe de Cananor encheu o coração de expectativas. Quando Gamblior retirou-se da mesa e anunciou que iria dormir, pois pretendia viajar cedo no dia seguinte, Kathrina não se conteve e lágrimas escorreram de seus olhos. Assim que Gamblior retirou-se Durkan foi falar com a princesa, mas foi ignorado por ela que saiu às pressas para seu quarto anunciando aos convidados que estava indisposta e iria dormir, mas que anunciaria sua escolha pela manhã.  Os irmãos de Kathrina tentaram convencê-la em ficar porem nenhum teve sucesso. Durkan se sentira humilhado por ter sido ignorado na presença de todos. Vendo o desapontamento de Durkan, Crane, o irmão mais velho de Kathrina foi lhe falar.
_Não fique de todo desapontado meu amigo. As mulheres são assim mesmo.
_Ela me ignorou na frente de todos._resmungou Durkan. _Não a amor que supere tal afronta.
_Que é isso meu caro. Ela está apenas chateada. Eu diria que está até carente. Devias visitá-la agora. Não com segundas intenções._Explicou Crane. _Mas apenas pra mostrar seu interesse por ela e se colocar a disposição de seu amor.
_Talvez tenhas razão. Ponderou Durkan com as mãos no queixo.
_Claro que tenho.
_Farei isso meu amigo. Vou visitá-la.
Durkan pediu licença aos que estavam ao seu redor e saiu em direção aos aposentos de Kathrina com determinação nos olhos. Atravessou o salão as pressas e quando Drurkali fez menção de acompanhá-lo, ele apenas recusou com um gesto com as mãos. Os corredores do castelo estavam vazios e silenciosos. Vez ou outra Durkan encontrava um guarda sonolento em seu posto que ao vê-lo sempre firmavam o corpo.
Ao chegar próximo ao quarto de Kathrina, ouviu vozes que vinham do quarto. “_Deve ser a criada.” _ Pensou Durkan. Mas de repente, um grito de desespero que foi estranhamente silenciado, paralisou Durkan por uma fração de segundo. Um estranho temor tomou conta de seu ser. Logo Durkan começou a correr em direção do quarto preparando sua corrente de batalha que ficava enrolada em sua cintura em ocasiões mundanas. Ao chegar diante do quarto viu que a porta já estava aberta e quando adentrou o recinto o terror tomou lhe conta. Uma enorme poça vermelha estava a crescer cada vez mais no chão. Em cima da cama estava estendido o que outrora fora a bela Kathrina. Agora um enorme ferimento por onde brotava litros de sangue, estava em seu peito. Parte de sua cabeça também fora atingida e sua mandíbula pendia-lhe por um simples tendão. Ao olhar ao redor procurando pelo assassino encontrou um rosto familiar e estranhamente sorridente num canto escuro do aposento. Durkan podia jurar. Era Gamblior.                   
O pavor virou ódio no coração de Durkan que atacou o suspeito com toda fúria de seu ser. As correntes, que possuíam pontas afiadas em suas extremidades, cortaram o ar em direção ao alvo. As três pontas atingiram o alvo perfurando a carne, mas não mortalmente. Durkan preparava o próximo ataque quando a lamina do inimigo surgiu como que um raio atingindo lhe o peito. Por pouco não fora um golpe mortal, mas a força do impacto jogou Durkan ao chão. Quando conseguiu se levantar viu que seu agressor havia fugido pela janela.
Durkan estava ferido. Pensou em perseguir o agressor mais ouvira os galopes do cavalo sai em disparada pelas ruas silenciosas. Ao seu redor tudo estava vermelho. Vermelhos estavam seus olhos de tristeza e ódio. Vermelho estava o chão. Vermelho era a enorme capa que o agressor usava naquela noite. Para Durkan vermelho era a cor da morte.