domingo, 20 de julho de 2014

O Prisioneiro

                                               Essa estória se passa após os acontecimentos da estória "Na beira do fosso." 



Gamblior estava com a garganta ressecada por causa da sede. Caminhava atrás da milícia de Crane e seus irmãos. Atrás de si a tropa de Stavianath se estendia. Para onde olhava via olhares revoltosos e ouvia insultos de ambas as partes. Vez ou outra Durkan olhava para trás com os olhos vermelhos e raivosos. Mas, Gamblior obsevara uma pequena mudança naquele olhar. Uma sombra pairava no rosto de Durkan. Uma sombra de dúvida.
Durante grande parte da jornada Gamblior caminhou com fome e sede. Não lhe davam alimento. E apenas no fim da tarde permitiam ele saciar um pouco da sede. Era Adrien, o irmão mais novo de Crane que lhe entregava o cantil. Mesmo sob os protestos dos outros dois irmãos.
 “_Esse infeliz matou nossa irmã, Adrien. Como pode ter compaixão desse maldito?” _Praguejava Crane.
“_Nosso pai quer que ele tenha um julgamento, Crane. De nada adiantará leva-lo ao tribunal de Stavianath se ele chegar lá morto.”
_Obrigado. Falou Gamblior após solver sofregamente cada gota d água que lhe fora dada. 
_Não pense que me apiedo de ti cão. Apenas não quero que morra de sede. _Respondeu rispidamente Adrien.
_Da próxima vez lhe daremos urina para beber, porco. _Insultou Cron cuspindo-lhe na face.
Gamblior jamais havia sido tão humilhado em sua vida. Acostumado com os cortejos da realeza, ele sentia se indignado por ser tratado daquele jeito. Mesmo se ele fosse culpado acreditava que nenhum homem poderia ser tão humilhado. Principalmente um homem com sangue nobre nas veias. Para a infelicidade de Gamblior, os stavianathos não diferenciam nobres ou plebeus na hora de serem rígidos com seus prisioneiros.
Ao chegar à cidade, muitos cortejaram os príncipes e seus soldados por terem capturado Gamblior. Todavia quando se dirigiam a Gamblior era com insultos ou para remessar coisas em sua cabeça. E pensar que dias atrás esse mesmo povo o saudava calorosamente. “_Assassino...” “Matem esse cão.” _Gritava a multidão. Os soldados tiveram que fazer uma barreira para impedir que a multidão agarrasse Gamblior e o matassem ali mesmo.
O jogaram em uma cela fria. Sem cama ou coberta. Apenas um chão duro feito mármore como cama. Tinha uns três metros de largura por dois de comprimento. No fim da cela havia uma latrina cheia de moscas que exalava um cheiro horrível.
 Gamblior não sabia quanto tempo havia passado desde que chegara. A cela dava frente para um longo corredor por onde havia uma galeria de celas e nenhuma delas tinha janelas por onde pudesse entrar a luz. Se fosse dia ou noite, nenhuma diferença fazia para ele. O frio noturno trouxe lhe uma febre que quase o matou por duas noites seguidas. Às vezes adormecia e sonhava com Kathrina. No sonho ela o chamava pelo nome. Ela corria por um bosque verdejante e ele corria atrás. Seu vestido azul esvoaçava ao vento e ela sorria alegremente. Ele também corria atrás dela rindo E quando ele a alcançava e a puxava para seus braços ela estava com um olhar aterrador. De medo e pavor. Seu vestido azul começava a encharcar se de sangue até ficar totalmente vermelho e então ela pendia de seu corpo como se tivesse partido ao meio. Gamblior acordava gritando e suando frio.
Certa vez o rei Cronder foi ter com ele. Apesar de velho, o rei sempre tivera um porte ereto e viril. Porem agora ele andava cabisbaixo e fraco. Seus olhos estavam fundos em suas cavidades e uma sombra pairava sobre sua face. A sombra da angustia e do luto.
_Ela o amava. Você sabia disso? Resmungou o rei. _Eu só queria salvá-la. Não sei por que não mandei mata-lo assim que Lecain me advertiu do destino de minha filha perto de você. Não quis acreditar... acho. Será que você e teu pai queriam apenas um motivo para guerrear? Quando decidimos comercializar o Tolnd com os habitantes de Turom vocês ficaram assim tão ofendidos?  “SE QUERIAM GUERRA VOCÊS CONSEGUIRAM!” Explodiu o rei em ira subitamente.
_Eu também a amava. Disse Gamblior. _Eu não a matei e sou inocente de suas acusações. Não lhe ocorreu que esse assassinato pode ter sido um plano de Durkan, o Cananor, para me incriminar e ao mesmo tempo vingar de sua filha por não lhe corresponder o amor como ele tanto queria?
_Durkan quase morreu tentando defender minha filha. Seu peito possui uma cicatriz que ele jamais poderia infligir a si mesmo. E muitos viram você fugindo da cena do crime na calada da noite. Quando os soldados foram ao seu encalço você e sua comitiva já tinha fugido.
_Eu havia anunciado que partiria pela madrugada, Cronder. E assim o fiz.
_Era para ser um dia feliz. Lamuriava o rei. _O aniversario de minha filhinha. O dia em que ela escolheria um esposo. Para amá-la e protege-la. Como os deuses foram cruéis comigo. Como foram cruéis. Agora ela encontra-se em uma câmera fúnebre. Pronta para ser cremada. E nem poderá ser vista pelo seu povo uma ultima vez.
_Por quê? Eu não entendo. Questionou Gamblior
_Não entende? Como você pode ser tão cruel. E pensar que eu te vi quando eras apenas um garoto. Jamais pensei que se transformaria nesse monstro. O que você não entende seu animal? Não entende que seu golpe a deixou irreconhecível? Que o lindo rosto de minha filha agora não passa de uma figura disforme e vermelha?
_EU NÂO A MATEI. EU JAMAIS FARIA ISSO. EU A AMAVA. Explodiu em loucura Gamblior caindo em prantos logo em seguida.
_Não importa. Disse calmamente o rei. _Meus filhos agora marcham com o exercito de Stavianath para pelejar contra teu pai. Ao que parece os caminhos das cordilheiras não são mais tão bem vigiados como antigamente. Agora dentro de seis dias você será julgado. Ao que me parece um lendário guerreiro de sua terra natal também acredita em sua inocência. Um guerreiro do qual eu não possuo suspeitas. Pois todos sabem de sua imparcialidade diante de assuntos políticos. O único que teve a coragem de jogar a verdade na cara de teu pai quando foi preciso...
_De quem está falando? Indagou Gamblior enxugando as lágrimas.
_Falo de Andivari, homem sem reino. Ele e mais dois estão dispostos a buscarem a prova para inocentá-lo.  _Não somos os bárbaros que os outros povos acreditam que sejamos. Todos possuem o direito de defesa. Até mesmo o assassino de minha filha. Se esse guerreiro está disposto a defendê-lo eu devo permitir. Ele possui seis dias para ir atrás do único que poderia inocentá-lo. O bruxo Lecain. Somente ele pode ver através do tempo. Seja ele futuro ou passado. Porem ele saiu para seu retiro anual na floresta. Soube de um prisioneiro que conhece bem as florestas. Vou enviá-lo para ser guia daqueles que advogam sua causa. Não faço isso por ti. Mais pela criança que um dia você foi. E porque mais do que ninguém, eu quero saber a verdade.
O rei afastou da grade deixando Gamblior com um olhar ansioso. Logo em seguida soldados passaram pela cela levando um jovem prisioneiro com eles.
_Esperem. Gritou Gamblior.
Quando os soldados pararam surpresos Gamblior pode notar o prisioneiro. Ele possuía cabelos cobreados e orelhas levemente pontiagudas. O olhar amendoado e as feições afinadas o denunciavam. O prisioneiro era um mestiço. Filho de humanos com os senhores do ar.
_Qual o seu nome? Perguntou Gamblior ao prisioneiro que era levado pelos soldados.
_Quem lhe deu o direito de fazer alguma pergunta cão insolente. Vociferou um soldado para Gamblior.
_Sou Gamblior, filho de Fandron. E apesar de estar sendo acusado de assassinato, quando minha inocência for provada não irás querer que eu tenha más lembranças de ti soldado. Gamblior se ergueu majestosamente e por um momento os soldados tiveram a ilusão de que ele estava liberto.
O Jovem prisioneiro respondeu: _Sou Guntz, Vesser Guntz, senhor.
_Diga a Andivari e seus companheiros, Vladislav e Verbena que eu agradeço. Guie-os bem por onde quer que vá, meu jovem. São boas pessoas que eu tive o prazer de conhecer nos dias festivos dessa cidade. Antes de toda essa loucura. Guie-os bem e terás minha terna amizade.
_A amizade de um prisioneiro não me vale nada meu senhor. Falou Guntz com um gracejo na voz. Mas o ouro recompensador de um príncipe inocentado é bastante motivador.
_Vamos andando imbecil. O guarda puxou Guntz que saiu aos tropeções.
_Hei... Vá com calma seu pulguento!
Enquanto eles se afastavam deixando Gamblior novamente com a escuridão, uma luz de esperança surgia na sua mente. Ele conhecera Andivari e seus amigos nos dias de festas antecedentes ao trágico ocorrido. Andivari é um nobre guerreiro. Justo e leal. Amigo de vários reis e respeitado por todos eles. Inclusive por seu pai. Beberam juntos e conversaram muito. Vladislav demonstrou ser um bravo guerreiro. Desconfiado de tudo, todavia, bondoso por trás daquele olhar abrutalhado. Verbena era uma donzela que poderia ser facilmente confundida com uma guerreira do norte. Apesar de manejar a espada melhor do que muitos homens que conhecera, ela havia ficado muito feliz quando ganhara um belo vestido para ir ao evento festivo. Feliz como qualquer donzela ficaria. “_São boas pessoas.” Pensava Gamblior enquanto se encolhia num canto da cela tentando se aquecer. “Nessas pessoas estão depositadas a minha esperança de sair vivo deste lugar e vingar a morte de minha amada Kathrina.”
Certos momentos o frio aumentava. Acreditava que era nesses momentos que caía a noite. 
 


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