segunda-feira, 24 de agosto de 2015

De volta ao lar

A cidade estava eufórica com a chegada do príncipe Gamblior. Muitos foram os boatos de sua morte, mas a presença do príncipe onipotente em cima de seu garanhão branco afastava qualquer duvida de que a noticia de sua morte havia sido uma cruel artimanha inimiga para enfraquecer a moral dos soldados de todas as cidades do reino de Hellin- Odel.  Soldados que prontamente partiram em auxílio do príncipe.
Mas os deuses estavam do lado do reino. A batalha ao sopé da cordilheira havia sido vencida e Cron e seus soldados haviam sucumbido. A capital de Stavianath, Shadarph, havia sido destruída e as demais cidades estavam dominadas. Graças ao auxílio do rei Keiran Dehildren, Senhor de Markden, a vitória havia sido conquistada.
_Eles ameaçaram nosso reino e nosso rei, mas o jovem Gamblior conquistou-nos uma vitória e nem mesmo a “morte” pode vencê-lo. –Falavam nas tavernas e ruas de Hellin-Odel.
_Lembram de como nos ameaçaram os homens de Stavianath?
_E aquelas mentiras de que nosso príncipe havia assassinado a princesa Kathrina?
 _Tolices. Eram puras tolices daquele povo mesquinho. Mas nosso príncipe vez justiça. Sim, ele fez. Fez cada um pagar pelas calúnias e difamações que fizeram com seu nome. Agora ele está conosco.
_Vida longa ao príncipe Gamblior. –Todos gritavam enquanto o príncipe passava.
Gamblior estava diferente. Mais corpulento apesar dos castigos das batalhas. Erguia-se prepotente em sua montaria branca. Exibia uma armadura negra com rebites de aço no peitoral e na ombreira. Apesar dos arranhões em seu braço, somente a cicatriz em seu rosto parecia significante. Um corte que descia da fronte passando sobre o olho esquerdo e indo acabar na orelha. Seus cabelos haviam crescido e cobriam parte da cicatriz, mas o seu olho direito assumira uma tonalidade vermelho-sangue. Quem via não sabia dizer se Gamblior ainda era capaz de enxergar com aquele olho.
O príncipe adentrara Hellindria, a cidade capital de Hellin-Odel junto com uma comitiva de duzentos homens, mas do lado de fora da cidade, entre a muralha e a praia, um enorme acampamento havia sido montado. Um exército de setenta mil homens estava espalhado pela praia, e nas colinas próximas da cidade. Navios ostentando bandeiras de Markden e de Hellin-Odel não paravam de chegar amontoados de guerreiros espólios de guerra adquiridos nas terras de Stavianath.
Hellindria havia sido construída ao sopé de uma imensa montanha intransponível que protegia toda ala leste da cidade. Ao redor da cidade haviam sido construídos quatro muros que separavam o povo por classes. Todos em formato de meia lua, começando em uma ponta da montanha e terminado na outra ponta.
 Mas todos os cidadãos, independente da classe passavam pela avenida principal que se estendia do portão principal, passando por mais três portões e indo até as portas do palácio real.
A maioria dos soldados que o acompanhavam se dispersaram ao chegarem ao terceiro portão. Somente um grupo de vinte e três homens continuou a cavalgada ao lado de Gamblior quando estes transpuseram o quarto e ultimo portão.  A região nobre de Hellindria era ainda mais esplendorosa que as demais. Estatuas de Tolnd e ouro enfeitava quase todas as esquinas. Arvores com folhas vermelhas e amarelas coloriam o ambiente ao mesmo tempo em que deixava o ar com um cheiro agradável.
No final da avenida, o palácio erguia suas torres aos céus. Todo pintado de branco, às vezes se mesclava com o branco da neve que cobria a montanha atrás dele. Diante da imensa porta escarlate que fazia contraste com as paredes brancas do palácio, Fandron aguardava a chegada do filho. Quando Gamblior ficou diante de Fandron, o rei olhou seu filho com um olhar desconfiado.
_Não vai abraçar seu filho, pai? –Disse Gamblior descendo de sua montaria.
_Claro que...vou. Meu ... filho.  Fandron abraçou o filho e o beijou na face, visivelmente incomodado.
_Que bom que estais vivo, meu filho. Venha, temos muito que conversar.
Os dois adentraram o castelo seguido de alguns poucos homens que os acompanharam até o salão principal e depois os deixaram a sós nos aposentos do rei.
Enquanto caminhavam lado a lado, o rei olhava para o filho analisando-o a cada passo. De súbito sua mente o levou ao passado. Quando sua esposa falecera ao dar a luz a... uma “aberração”... ao filho.
Gamblior havia nascido junto com um irmão gêmeo. Contudo o irmão era coligado a Gamblior pela cabeça. Siameses, “uma anomalia”, alguns diziam. O rei cuidou para que ninguém soubesse que o seu filho havia nascido deformado. Apenas o general Urizeh, que foi incumbido de matar a parteira antes que esta falasse algo a alguém, era que sabia.  Foi o general Urizeh que disse conhecer alguém que poderia ajudá-lo. E assim o rei Fandron conheceu Lecain.
Lecain poderia separar os irmãos siameses, mas haveria um preço. Lecain iria criar um deles longe do castelo e da vista de todos. Ele deveria ser criado longe do pai, do irmão e da realeza. Ele seria criado para um propósito maior e quando chegasse à hora o rei deveria aceitá-lo como o verdadeiro e legitimo herdeiro do reino. E este escolhido conquistaria todos os reinos.
_E o que será do outro filho? O que for criado comigo? –Perguntou Fandron ao estranho homem que estava diante dele. 


_ Não se preocupe com isso agora. Apenas cuide dele e o ame como um pai deve amar um filho. Mas quando o outro retornar será melhor amá-lo da mesma maneira. –Disse Lecain a Fandron naquela longínqua noite.
Quando o rei consentiu Lecain levou as crianças unidas pelo crânio e após uma semana retornou com um garoto saudável nos braços. Ele possuía a cabeça enfaixada e Lecain o visitava periodicamente durante um ano. Quando Fandron fazia menção sobre o outro filho Lecain apenas dizia.
_Este é seu filho. Ame e desfrute do tempo que vocês puderem compartilhar.
Aquelas palavras sempre deixavam Fandron amedrontado. E quando ele olhava a criança no berço, tão perfeita, tão bela, Fandron também tinha medo. Tinha medo de perdê-la. Ele abraçava a criança amorosamente e a segurava protegendo-lhe a cabeça nos braços. Não faltou amor àquela criança.  Mas aquela criança estava no passado. O homem que caminhava ao seu lado e o chamava de pai era um estranho. Eles poderiam ser fisicamente semelhantes, mas não era o mesmo. Aquele olhar não era de Gamblior e a cicatriz no rosto só piorava a aparência. Mas esse Gamblior fazia questão de exibir cicatrizes. Nos braços e pernas havia cicatrizes espalhadas. Cicatrizes antigas e cicatrizes recentes.
_Cicatrizes demais para um príncipe. –Pensava Fandron. _Seja como for, este também é meu filho. Tenho que amá-lo como amava o outro.


Os dois caminharam em silencio lado a lado e em silencio permaneceram durante o resto do dia. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Em Busca da verdade.

Havia passado três dias desde que Verbena, Andivari e Vladislav haviam saído de Stavianath pela caverna. Perceberam pelas fazendas e vilarejos que passavam que a guerra estava acontecendo. E era um inimigo cruel que destruía Stavianath. Um inimigo que por muito tempo havia sido um grande aliado. 
Por onde passava, o general Obadian Teron deixava sua marca. E sua marca era cruel. Famílias inteiras eram massacradas após servirem aos seus soldados. Mulheres eram estupradas e crianças mortas pelo simples fato de chorarem. Pelo menos foi o que disse o fazendeiro moribundo que encontraram na fazenda destruída. O fazendeiro logo faleceu pois suas feridas estavam além dos conhecimentos de Verbena para auxiliá-lo. Agora, o único comodo que não havia sido totalmente queimado servia dormitório para os três passarem a noite e cuidarem do ferimento de Andivari. 
 A cicatriz do rosto de Andivari se abriu e voltou a inflamar . Verbena passava muitas horas cuidando dele enquanto Vladislav vigiava o recinto. A ferida que deixara uma enorme cicatriz no lado esquerdo do rosto parecia não querer curar e nem mesmo os unguentos doados por Lecain pareciam surtir efeitos.  Verbena estava preocupada pois já havia muito tempo que Andivari sofrera o golpe que o deixou com a cicatriz . Eles tentavam encontrar Lecain para inocentar o falecido príncipe Gamblior na época.
_Guntz ainda estava vivo. E até mesmo Gamblior. -Pensava Verbena. 


A história a seguir se refere ao passado, quando Andivari, Verbena e Vladislav, com a ajuda de Guntz, tentavam encontrar Lecain para inocentar o príncipe Gamblior.
" meses atrás..." 
 Os quatro saíram cedo. Andivari, Vladislav, Verbena e Vesser Guntz, o novo guia que os levariam pelos caminhos ocultos da floresta. Com um jeito imaturo e brincalhão, Guntz logo conquistou a simpatia de Verbena e Andivari. Somente Vladislav teve uma relutância inicial de aceitá-lo. _Ele fala demais. –Resmungava Vladislav. _Ele é um mestiço Vladislav. Já sofre preconceitos demais por parte da maior parte da sociedade. –Repreendeu Verbena. _Não acha que seria melhor aceitarmos sua tagarelice como sinal de afabilidade?
 O mestiço herdara as habilidades de seus antepassados élficos em rastrear na floresta. Via rastros onde ninguém mais via. Estava sempre cantarolando algo, mas quando encontrava um rastro, fazia sinal para todos ficarem em silencio. Sua fisionomia adquiria um aspecto sério que logo era quebrado quando ele concluía sua análise do terreno. Eles adentravam a mata em direção a floresta Delron na esperança de alcançarem Lecain. Quando Andivari decidiu ajudar o príncipe Gamblior, descobriu que o mago Lecain havia prevenido o rei de que a princesa Kathrina seria morta. Mesmo que Gamblior não estivesse no castelo quando a princesa foi assassinada, o rei não estava disposto a inocentar o príncipe. Principalmente porque havia uma testemunha de que Gamblior havia realmente matado a princesa Kathrina. Lecain era sua esperança de inocentar o príncipe. Pois se ele sabia que a princesa seria morta, provavelmente ele sabia quem a havia matado.
 Lecain era um mago exótico. Alguns acreditavam que na verdade ele era praticante do conhecimento ágtis, pois ele não aparentava sofrer os males dos praticantes da magia. Certo era que dentre os dons de Lecain, estava a habilidade de vê o futuro e o passado. Pelo menos era o que diziam e por mais cético que Andivari fosse, Lecain era sua única esperança.
 No segundo dia de caminhada, ao cair da quinta hora do período de Álax, Guntz se surpreendeu com um fato que havia passado despercebido pelos outros. _Já passamos por aqui.
 _Como assim? Eu não me lembro disto. –Questionou Vladislav. _Está um pouco diferente de quando passamos pela última vez, mas é um fato. Nós já passamos por aqui. Veja esta marca no tronco desta árvore velha. Fui eu que fiz. Quando fiz essa marca a arvore ainda estava jovem e frondosa, mas tenho certeza que é a mesma árvore. 
_Talvez Lecain não queira ser encontrado e esteja utilizando de magia para nos enganar. – Arriscou um palpite a jovem Verbena.
 _Pode até ser verdade, Verbena. Mas não podemos desistir agora. Temos que encontrar Lecain custe o que custar. –Afirmou o convicto Andivari.
 _Pode não ser Lecain. –Dizia Guntz. _Pode ser a própria floresta. Dizem que a floresta de Delron é uma floresta com fortes propriedades mágicas e que se ela se sentir ameaçada ela dá um  jeito de atacar os viajantes fazendo eles se perderem e caírem em armadilhas criadas pela própria natureza. _Temos que prosseguir. Logo irá escurecer de novo e se tornar praticamente impossível perambular pela floresta no período de Erius. 
Quando anoiteceu, como era de costume Andivari e Vladislav fizeram uma fogueira e Verbena preparou um coelho gordo que Guntz havia caçado com seu arco. O coelho foi preparado com batatas e condimentos que Verbena trazia em sua mochila de viagem. Logo o cheiro agradável que se espalhou pelo ambiente. Assim que Verbena começou a servir as tigelas, Guntz iniciou a vocalização de um estranho mantra. _O que está fazendo mestiço? –Questionou Vladislav. _Estou afastando os predadores de perto para podermos ter uma refeição em paz. _O único predador aqui sou eu. Se não comer logo eu irei ajudá-lo a degustar esse ensopado de coelho. 
Todos pareciam bastante descontraídos. Até mesmo Vladislav parecia se divertir. Aquela foi a primeira noite na floresta que conseguiram dormir bem. 
Ao amanhecer Andivari e Vladislav conversavam baixo enquanto Verbena e Guntz ainda dormiam. _Também percebi. –Respondia Vladislav a um comentário de Andivari.
 _Esta noite não ouvi o barulho dos insetos como é de costume.
 _Esta parte da floresta é bastante estranha. Observe que até mesmo agora não há tantos pássaros cantando como deveria haver. A floresta está em silêncio.
 Quando todos acordaram e tomaram um rápido desjejum, prosseguiram o caminho. Guntz havia encontrado um rastro que levava a uma caverna conhecida nas proximidades. Era conhecida por ser morada de uma matilha de “lobos de fogo”.
 Lobo de fogo era uma raça de lobos que existiam em Delron. Eles possuíam a pelagem vermelha, eram ferozes e a territorialidade era uma de suas características mais marcantes. Caso os rastros realmente levassem até a caverna, não seria fácil enfrentar os lobos. 
Ao chegaram à entrada da caverna, Guntz percebeu que os lobos haviam passado em alta velocidade por aquele local. Como se tivessem fugido de algo. _Os lobos fugiram de algo que ainda pode estar dentro da caverna. –Concluiu Guntz depois de observar atento o chão ao seu redor e mais adiante. Logo adentravam a caverna. Andivari e Vladislav iam à frente com espadas e tochas em punho. Logo atrás vinha Verbena e o próprio Guntz. A entrada da caverna era imensa e a claridade aprofundava bastante após se aprofundarem chão adentro. Desceram por uma escada de pedra feita pela própria natureza até um chão que era coberto de areia. Andivari observou que havia sangue seco no solo. Logo adiante encontraram o primeiro lobo. Ele havia sido partido em dois. Seja lá o que for que fizera aquilo havia utilizado uma lâmina em brasas, pois o pelo ao redor do ferimento havia sido todo chamuscado no momento em que ocorrera o corte e um cheiro de carne queimada ainda impregnava o ar. 
 _Esperem! –Advertiu Guntz. _Estou ouvindo algo. Ninguém a não ser o próprio Guntz parecia ouvir alguma coisa, mas mesmo assim todos pararam. Já haviam aprofundado uns vinte metros caverna abaixo e encontraram dezenas de lobos mortos. Guntz insistia no barulho. _Vários estalos metálicos como se estivessem batendo lanças no chão de pedra. –Dizia ele. O grupo estava em um salão cavernoso que possuía dois corredores além do que eles haviam vindo. Logo todos começaram a ouvir o estranho barulho ritmado e cada vez mais próximo. Seja o que fosse, estava vindo em direção a eles. E vinha em grande velocidade. 

À medida que aproximava, todos tinham uma ideia do tamanho de seja lá o que for. Guntz soltara a tocha no chão e se equipara com seu arco encaixando uma flecha na corda e flexionando ao máximo o arco. Apontava para a entrada dos corredores. Hora e um, hora em outro. E foi com um grito animalesco que a criatura surgiu. Com aproximadamente três metros de altura e uns cinco e meio de envergadura, uma criatura aracnídea com o corpo revestido por uma couraça metálica e olhos que emitiam uma forte luz amarelada saiu de uma das entradas de um corredor. O que se seguiu foi um combate violento de fúria e pânico misturado em uma hedionda dança macabra pela sobrevivência. Andivari e Vladislav golpeavam repetidas vezes as patas da criatura na esperança de conseguirem derrubá-la, mas tudo o que conseguiam era irritar a criatura. Quando as espadas se chocavam contra o corpo da criatura os golpes soltavam faíscas, mas sequer perfuravam a couraça metálica da criatura. Guntz pulou por baixo da criatura no momento em que esta iria acertá-lo com um golpe fatal com uma das patas pontiagudas. Saiu do outro lado, nas costas do monstro enfurecido e com agilidade sobre-humana subiu por seu tronco e disparou várias flechas que simplesmente ricocheteavam em sua carapaça metálica. A criatura girou enfurecida lançando Andivari e Vladislav longe. Verbena avançou com a espada em punho gritando um grito de fúria e medo misturado e mirando o golpe entre o corpo e a pata dianteira conseguiu ferir a criatura que caiu gritando ensurdecedoramente jogando Guntz longe no processo da queda.
 Suas outras patas começaram a golpear desvairadamente quando um golpe veio em direção de Verbena cortando o ar. Em fração de segundos a promessa de Andivari ao pai de Verbena veio à tona em sua cabeça. Sem hesitação Andivari se jogou na frente do golpe parando a pancada com a espada. Infelizmente o golpe era violento demais e a pata afiada da criatura atingiu o rosto de Andivari deixando sua visão rubra. Verbena correu ao auxilio de Andivari que havia caído cego devido ao sangue que saía da ferida em seu rosto. Vladislav tentava encontrar uma brecha nos ataques eufóricos da criatura.
 _Vamos sair daqui senão morreremos. –Gritou Vesser Guntz.
 _Não será hoje que a morte me levará. –Bradou Vladslav atingindo um dos olhos da criatura que estranhamente explodiu lançando um clarão ofuscante por todo salão. A iluminação estava fraca, pois as tochas haviam caído no chão, mas ainda assim todos viram o vulto aproximando se. Logo, um velho de cavanhaque negro e pontudo, vestido com um manto marrom e um cinto de metal dourado na cintura, apareceu na entrada do salão cavernoso. Em sua mão trazia um medalhão que ele brandiu no alto de sua cabeça e o medalhão emitiu um  estranho brilho seguido de um leve ruído que fez com que a criatura aracnídea emitisse um som semelhante a um assobio agudo e caísse nocauteada. _Posso saber o que vocês fazem aqui? –Perguntou o velho Lecain expressando uma face raivosa enquanto guardava o medalhão mágico em uma bolsa de couro vermelho que trazia ao lado da cintura.
 _Buscamos por respostas. Respostas que acredito que o mago que tudo sabe poderá nos dizer. –Falou Andivari se erguendo com o auxilio de Verbena. _Se algum de vocês conhecerem alguém que a tudo sabe, por favor, me apresente. Com certeza deve ser alguém bastante singular. –Falou zombeteiramente Lecain. _Agora deixe me ver esta ferida. Não precisa ser nenhum sábio para saber que esse ferimento vai infeccionar se não for devidamente lavado e tratado.
 _Queremos saber quem matou a princesa Kathrina. –Disse sem rodeios Andivari enquanto Lecain apalpava sua ferida. _O jovem príncipe Gamblior pode morrer caso não encontremos o verdadeiro culpado.
 _E o que o faz crer que eu sei a resposta? E como tens tanta certeza da inocência do príncipe de Hellin-Odel?
 _Foi você que disse que ela morreria. “_Aquele que trás a morte para dentro do reino é aquele que possui os cabelos de ouro...”, você disse. Com essas palavras você acabou por condenar a Gamblior. _Sim. Eu disse. Mas não disse que seria Gamblior a matá-la. Se minhas palavras fossem culpa-lo também teriam culpado a ti e ao seu amigo aqui. Disse dirigindo um olhar a Vladislav. _Ou até mesmo a jovem moça. –Olhou Verbena nos olhos enquanto passava um unguento na ferida de Andivari. _Afinal de contas todos vocês possuem os “cabelos de ouro”.
 Andivari sabia que Lecain tinha razão. Na verdade se não fosse as acusações de Durkan contra Gamblior, todo forasteiro de cabelos dourados em Stavianath seria um suspeito. E isto teria incluído ele e seus companheiros na lista de suspeitos.
 _Aquele que acusa o príncipe é que sabe quem matou Kathrina. Ele está vendado pela confusão, mas tão logo sua mente esteja esclarecida os olhos recobrarão a visão. Durkan estava cego de ciúmes e ódio de Gamblior. Seria razoável se seus olhos vissem o seu inimigo pessoal no lugar do assassino de Kathrina.
 _Pode ser que o velho tenha razão. –Comentou Guntz.
 _Você precisa vir conosco Lecain. Tens de convencer o rei Cronder de que Gamblior pode ser inocente. –Falava Andivari ainda aflito pela dor em seu rosto.
 _Você não pode viajar com esse rosto assim meu jovem. Descansem pelo menos uns dois dias. _Ficar aqui com essa criatura? –Perguntou o assombrado Guntz dirigindo um olhar apavorado para a criatura imóvel no solo. _Jamais. –Afirmou enfim.
  _A criatura está sob meu domínio agora. –Dizia Lecain. _ E lamento, mas não posso abandonar meus processos mágicos agora. Já basta a interrupção que vocês me causaram. Fiquem com esses unguentos para tratarem das feridas. No final desse corredor existem alguns cobertores de peles e uma lareira. Fique o tempo que precisarem, mas não me incomodem mais.
 Dizendo isso, Lecain seguiu o outro corredor. Em um estrondoso salto a criatura se ergueu e seguiu Lecain. Andivari queria segui-lo e questioná-lo, mas sabia que precisava retornar antes do julgamento de Gamblior. Sentia-se culpado por ter feito a viagem e não ter conseguido convencer Lecain de retornar com ele. 
De uma janela mágica Lecain viu quando os viajantes saíram da caverna em direção ao reino de Stavianath.
 _Meus planos não poderiam ter saído melhores. –Pensava Lecain. _Ao que me parece terei de fazer uma ultima visita ao prisioneiro. 

"de volta ao presente..."
Andivari queimava de febre. Verbena acariciava seus cabelos enquanto passava um pano úmido em cima de sua cicatriz inflamada. A cicatriz assumira um aspecto horrível. _Ele perderá a visão do olho esquerdo, como certeza. -Concluía em seus pensamentos.  
Os dois estavam próximos a uma lareira. As paredes ao redor ainda possuía o cheiro e o aspecto escuro do recente incêndio que destruiu a maior parte dos cômodos da casa.  




              

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Fogo no Céu.

 Crane e Adrien estavam um ao lado do outro, montados em suas montarias de combate. De cima da colina podiam ver todo o campo verdejante antes das muralhas de Shadarph. Eles haviam reconquistado inúmeras cidades no retorno para a sua cidade natal. Somente agora eles compreenderam porque não tiveram grande resistência nas outras cidades. A maior parte do exercito markdeno estava em vigília em Shadarph. Das batalhas anteriores até o momento, um bando de sobreviventes juntou se a eles. Muitos haviam perdido suas casas e seus familiares e o desejo de lutar contra os markdenos era ampliado por algo mais além de fidelidade aos príncipes de Stavianath.     
_Não a marcas de cerco ao redor dos muros. –Observou Crane.
_O exército Markdeno sempre foi aliado. Ninguém esperava essa traição. Concluiu Adrien enquanto apertava a fivela do cinto da sua espada longa. Seu cabelo estava amarrado em um longo rabo-de-cavalo que caia sobre suas costas junto com a capa cinza que cobria seu peitoral de aço duplo.
_Os malditos chegaram como aliados. Devem tê-los deixado entrar. Essa é a única explicação. Crane estava com o rosto cerrado e seus cabelos negros esvoaçavam diante de seus olhos encolerizados. Suas mãos seguravam com força o cabo do machado de guerra.
Atrás deles um exército de dezoito mil homens e algumas mulheres guerreiras estava de prontidão.
Os dois príncipes logo souberam das cabeças cravadas em estacas acima dos portões da cidade. Eram as cabeças de nobres e senhores de Shadarph. Ambos sabiam que a cabeça de seu pai estava entre elas. Mas não choraram. Não havia mais lágrimas. Apenas o desejo de vingança. No alto da muralha havia três vultos. Sabiam que um deles era Keiran Dehildren. O maldito havia vindo de Markden para tomar posse de sua vitória. Os outros dois eram desconhecidos para eles.
_Devemos atacar com tudo. Somos mais numerosos. Podemos invadir a cidade. Faremos aríetes e derrubaremos os portões. –Falava Crane sem pensar muito.
_Não se afobe irmão. –Disse Adrien colocando as mãos no ombro do irmão enraivecido. Eles possuem a muralha a seu favor. Além do mais muitos de nossos guerreiros ainda não se recuperaram das batalhas anteriores.
_O que estou dizendo? –Surpreendeu-se Crane. _Nunca pensei que atacaria as muralhas de minha própria cidade.
_Vamos nos reunir com os generais. Devemos tentar encontrar algum termo para enviarmos a Keiran. Falou por fim Adrien dando meia volta com o cavalo e retornando para junto do seu exército.
Já era tarde quando eles reuniram os mais de
Cinquenta líderes em uma imensa cabana improvisada para a reunião.
_Eles não são mais que doze mil homens. –Dizia um dos líderes. _A maior parte do exercito ainda continua nas terras de Markden.
_Também não somos um exercito completo. Deixamos nove mil soldados com o príncipe Cron.
_Foi necessário. Foi a bravura de Cron que garantiu o nosso retorno.
_De que adianta termos retornado se ficamos aqui parados enquanto nossos filhos são mortos e nossas mulheres violadas dentro das muralhas? –Resmungou um dos homens que possuía uma longa barba negra e braços fortes apoiados em uma imensa barriga.
_Não diga tolices, porco. Sou de Salamphor e vi mulheres serem estupradas, velhos serem mortos. Ainda assim nossas altezas Crane e Adrien nos libertaram. A mulher que falava era selvagem e bela. Tinha músculos como um rapaz, mas suas curvas femininas eram acentuadas. _Luto por eles porque confio nas estratégias de combate deles. A força bruta não vale nada se não houver inteligência para empenhá-la.
_Falou bem mulher. Não questiono mais nada. Concordou o homem gordo de barbas longas.
_Eu não pude deixar de notar que muitos mercenários do deserto estão lutando com os markdenos.
_São mercenários. Mas porque Keiran contrataria mercenários do deserto para lutarem com eles? Eles são inimigos declarados.
_Éramos aliados. –Interrompeu Adrien. _Agora somos inimigos. Vamos enviar um mensageiro. Temos que ouvir o que Keiran tem a dizer.
_ Eu posso ter a honra senhor? _Disse um jovem que parecia ter infiltrado na reunião.
_E quem és tu jovem? –Perguntou Crane.
_Sou Eikhen, filho de Haimirich.
_Você não passa de um escudeiro jovem.
_Mas também sou um homem estudado senhor. Sei ler e escrever e sou habilidoso com as palavras, meu senhor.
_Não sei se tu estás qualificado Eikhen.
_Meu senhor. Confesso que não sou um bom espadachim. Ainda assim estou disposto a lutar. Mas empenharei um papel melhor na batalha se em vez da espada eu possa utilizar as palavras. Prometo descobrir o que Keiran pretende. Por favor, meu senhor. Uma daquelas cabeças acima dos portões pertencia a meu pai.
A última frase do jovem cativou o príncipe que com o apoio de Adrien consentiu.
A estrela Álax brilhava onipotente nos céus quando o jovem Eikhen desceu a colina galopando em um corcel branco. Em sua mão direita estava a haste da bandeira com os símbolos de trégua e paz. O jovem possuía um semblante orgulhoso no rosto. Os raios de Álax refletiam na armadura prateada que ele ganhara do príncipe Adrien e o vento fazia esvoaçar sua capa branca.
Ainda do alto da colina Adrien e Crane observavam o rapaz cavalgar em direção à cidade. Eles não entenderam muito bem quando o rapaz pareceu diminuir a velocidade e começar a fazer voltas com a montaria como quem procura algo no chão.
No alto da muralha as três figuras ainda observavam paradas quando o jovem deu meia volta na montaria e começou um galope veloz de retorno para as colinas. Logo centenas de figuras apareceram no alto da muralha e um rompante de flechas cruzaram os céus em direção ao jovem. Ao ver o zumbido acima de si o jovem empenhou se mais ainda em seu galope frenético. Flechas cravejaram seu corpo e o jovem caiu. O próprio Adrien apanhou um escudo de corpo e antes que alguns de seus homens pudessem intervir saiu a galope com seu corcel em direção ao jovem caído, que mesmo ferido, havia se erguido e andava em direção as colinas. As flechas já não o alcançavam mais quando Adrien o apanhou e o colocou na sua montaria. Quando chegou ao alto da colina o jovem já se encontrava morto. Mas Adrien notara que a capa do jovem estava encharcada com algo.
_Óleo. –Afirmou Adrien.
_O que? –Questionou seu irmão.
_O vale está cheio de poças de óleo. Esses loucos queriam incendiar nossa infantaria.
_Canalhas. Não percebem que o fogo pode incendiar a muralha também caso fique descontrolado devido ao vento?
_Eles não parecem se importarem irmão. Vamos. Temos que pensar em algo.
Era noite quando um dos vigias aproximou gritando para os príncipes.
_Senhores, eles abriram. Abriram os portões da cidade.
_O que?
Logo os irmãos viram que era verdade. Centenas de coches puxados por bois começaram a sair da cidade. Em cima deles haviam celas abarrotadas de pessoas. Ao redor também havia várias pessoas que corriam desajeitadas.
_O que estão fazendo? Estão libertando os reféns?
_Se estão libertando os reféns porque eles ainda estão presos uns aos outros com grilhões de metal?
_Não. Balbuciou Adrien.
Estavam muito longe e era noite para que alguém pudesse ter visto algo, mas Adrien sentiu que um número de vultos se enfileirou em cima da muralha.
_Não... Não... Não...
Logo a muralha estava toda iluminada com tochas flamejantes dançando ao vento.
_Não. Não. Não. Não. Todos começaram a lamuriar.
Lá embaixo os bois puxavam os coches lentamente. Entre os andantes a pé havia velhos e crianças que corriam tropeçando uns nos outros. Quando caiam puxavam outro, pois estavam presos uns aos outros. O terreno escorregadio dificultava mais ainda.
Por um momento o céu se tornou claro como dia e uma chuva de estrelas pareciam cair. As flechas incendiárias caíram no solo e uma explosão flamejante tomou conta de todo o vale. Duas mil vozes suplicantes uniram se aos lamentos dos guerreiros que largaram armas e correram loucamente em direção as chamas para tentarem libertar os prisioneiros que eram queimados vivos.

_NÂÂÂÂOOO. Meu povo. Tenho que salvá-los. –Crane correu com olhos lacrimejados e mergulhou nas chamas em um ímpeto de loucura. Muitos foram os guerreiros que o seguiu para dentro das chamas.
Os gritos agonizantes martelavam na cabeça de Adrien. Ele olhava em direção as chamas, mas seus olhos estavam vagos.
_Senhor? Quais são suas ordens? Senhor? Meu príncipe? – Perguntava a mulher de Salamphor. _ Temos que sair daqui meu príncipe. Os Hellin-Odelianos estão atrás de nós. Estamos encurralados entre as chamas e o inimigo.

Adrien permanecia imóvel. Paralisado como uma estátua. _Seu corpo vive, mas sua mente já morreu. –Concluiu a mulher.

domingo, 31 de maio de 2015

O Rei Renascido



       Já era noite quando o general Obadian Teron avistou as muralhas de Anarkden no horizonte. O corpo gélido de Keiran pesava em seu ombro. O cheiro ocre de sangue coagulado preenchia suas narinas e vez ou outra dava lhe náuseas. Mesmo assim ele continuava a carregar o corpo do falecido rei. Suas roupas estavam encharcadas de sangue escuro e pegajoso. Temera deparar se com animais selvagens por todo o trajeto. Verdade era que até estava esperando por isso, mas como não ocorreu nenhum encontro deu créditos ao seu destino que estava prestes a mudar satisfatoriamente.

      Em breve essa vida de servidão ficará para trás. Serei o novo rei de Markden. –Pensava Obadian Teron. –O próprio Lecain me garantiu os meios para tal fim. Tenho apenas que entregar o corpo do rei para ele que ele cuidará do resto. Ainda bem que esse saco de estrume não teve filhos, senão seria mais complicado. Como pode ter uma mulher daquela como esposa e não ter filhos? Herr... Provavelmente não deveria ser homem mesmo. Pois quando eu for rei vou foder aquela mulher como ela nunca imaginou ser. E vou gerar vários filhos até que ela se acabe de tanto parir. _Obadian colocava um sorriso perverso em seu rosto enquanto devaneava sobre seu possível futuro. Por um momento esqueceu-se do peso incomodo do corpo morto de Keiran.
      Nos céus, as duas luas brilhavam. _Os olhos de Iévine. Pensou quando olhou para o céu. _Pois vá se ferrar Iévine. Falou em voz alta quando virou em uma trilha ao leste da muralha de Anarkden. Antes de tudo deveria levar o corpo de Keiran até Lecain. E Obadian sabia onde encontra-lo. E não era na cidade.
     Meia hora depois, Obadian batia na porta de uma cabana rústica aos arredores da muralha exterior de Anarkden. Era comum que os plebeus construíssem suas cabanas nas proximidades da cidade. Mesmo que fossem sempre as primeiras vítimas quando a cidade era alvo de ataque, a proximidade da muralha dava lhes uma falsa sensação de segurança. Havia muitos anos que Anarkden não sofria qualquer tipo de ataque. Isso fez com que cabanas desse tipo proliferassem ao redor da muralha. O rei havia até decretado que para se viver ao redor da muralha cada cidadão pagar um imposto simbólico de um barão de bronze. Muitos plebeus foram embora viverem aos arredores de outra cidade depois disso, mas a maioria ficou apenas para poderem ser chamados de “cidadãos” em um documento oficial do rei. Verdade era que as moedas que eles pagavam eram as mesmas que o agora morto, rei Keiran lançava aos mesmos plebeus quando passava pelas arruelas da cidade. Adquiria assim a fama de “bondoso rei”. “_Uma forma inteligente de fazer a economia girar.” - lembrou-se que Keiran costumava lhe dizer. –Pois quanto eu for rei vou mandar queimar todo esse “entulho”. –Pensou.
     Foi na terceira batida que um homem alto e magro abriu a porta. _Entre. –Disse secamente.
     _Já era hora. Você faz ideia de quanto tempo estou carregando esse cadáver?
     _Pouco me importa. Traga-o até meu aposento particular.
     A resposta ríspida e direta de Lecain deixou Obadian irado, mas ele se conteve e apenas obedeceu.      –Quem este velho está pensando que é? Posso mata-lo sem dificuldade. Pensava enquanto carregava o corpo de Keiran até um quarto iluminado por luzes mágicas que saíam de objetos estranhos feitos de metal. Uma cama estranha estava no centro do quarto e aparelhos exóticos projetavam garras metálicas e mortíferas na direção dela. A visão daquele ambiente estranho causou certo pavor em Obadian e ele se arrependeu do pensamento que havia tido pouco tempo atrás. Lecain era conhecido como um bruxo pacífico. Que sacrificava sua saúde em prol da paz e em auxilio do próximo. Quando o conheceu e soube de seus planos não havia acreditado que era apenas “pelo bem maior das nações”, como Lecain havia lhe dito. Pensava que o velho queria apenas ouro, mas, agora não tinha certeza do que ele queria. Sempre suspeitara que Lecain fosse um charlatão. –Esse velho se perfuma demais. Ele esconde algo.
     _Coloque o corpo encima desta cama e saia. Aguarde no outro aposento e não entre e nem deixe ninguém entrar. Por nada desse mundo alguém deve entrar aqui, entendeu?



     _Sim senhor. Obadian Teron colocou o corpo inerte de Keiran na cama e saiu mais depressa do que imaginava ser possível. Teve medo de que as garras metálicas fixadas no teto caíssem sobre ele com golpes mortíferos, mas elas não moveram nenhum centímetro.

     Ao sair, Obadian Teron apoderou se de uma garrafa de vinho e desabou exausto em uma poltrona mofada que ficava perto da porta. Após bebericar alguns bons goles do vinho tentou dormir, mas os estranhos sons vindos do quarto onde se encontravam Lecain e o cadáver o deixou assustado demais para pensar em fechar os olhos. Pareciam carne sendo rasgada e gritos de mil demônios das profundezas do mundo. Parecia que ocorria uma tempestade dentro do quarto. De vez em quando alguns reflexos de luzes sobressaíam se pelas frestas da porta. Os estranhos sons se prologaram por horas a fio até que a curiosidade falou mais alto que o medo. Obadian foi bisbilhotar pelo buraco da fechadura e o que viu o deixou boquiaberto. Vários apetrechos metálicos estavam fincados na carne morta de Keiran. Lecain utilizava uma máscara ritualística e tinha um objeto estranho nas mãos. Objeto que Lecain colocou dentro do corpo de Keiran. Exatamente onde ficava o coração que o silbetheron havia arrancado. Em seguida Lecain puxou uma alavanca e raios começaram a cair sobre o corpo de Keiran.
     _Que maldito ritual é este? E pra que? –Pensava Obadian Teron quando Lecain olhou em direção a fechadura e um raio de luz invadiu o quarto e Obadian caiu para trás inconsciente.
     _Acorde, vamos acorde! Falava a voz familiar enquanto davam lhe tapas no ombro. Seus olhos estavam entreabertos e pode notar que estava deitado em uma cama de palha virado em direção a uma janela aberta que demonstrava que já era dia claro lá fora. Obadian virou se esperando ver o rosto do velho Lecain e quase teve um infarto quando viu o rosto inexpressivo de Keiran a lhe encarar.
     Obadian Teron pulou da cama com toda a velocidade que possuía e saiu correndo em busca de sua espada. Percorreu quase toda a casa até que a encontrou perto da porta de saída. Pegou e desembainhou a espada com reflexos ligeiros e ficou com as costas apoiadas na parede e a espada em riste diante de si. Sua respiração estava ofegante e o ritmo do coração estava acelerado. Quando viu Keiran vestido com roupas limpas e andando em sua direção calmamente seu coração acelerou ao ponto de parecer que ia explodir.
     _Para trás fantasma maldito. Afaste-se de mim. –Esbravejou ameaçando golpes de espada em direção do inexpressivo Keiran. Obadian indagava a si mesmo se tudo aquilo não passava de um terrível pesadelo.
     _Não seja medroso como uma criança chorosa seu bastardo. –Disse lhe Lecain que vinha atrás de Keiran com seu andar encurvado segurando um cajado que aparentemente servia apenas para complementar o figurino de um personagem. _E tenha mais respeito com o seu rei.
     _Como pode? Ele estava morto. Eu vi. Eu carreguei seu cadáver por horas. Vi seu coração ser arrancado. –Lamentava Obadian. _Isto não é possível. Você prometeu que eu seria rei. –Esbravejou Obadian agora apontando a espada para Lecain. Seu maldito.
     Obadian pulou em direção a Lecain e fenderia a cabeça dele se Keiran não tivesse pulado na frente e defendido o golpe com o braço. Um sangue escuro e mal cheiroso saiu da ferida que a espada causou no braço de Keiran, mas a espada de Obadian partiu se ao meio deixando Obadian trêmulo de medo.
     _Imbecil. –gritou Lecain. _Não pense que você não é dispensável porque você é.
     _Você prometeu que eu seria rei. Pra que todo o trabalho de armar uma emboscada e matar Keiran se você o trás dos mortos na noite seguinte?
     _Imbecil. Como um mero general poderia se tornar rei? Como o povo aceitaria isso? Não sejas tolo. –Disse Lecain. _Você irá reinar, mas através do novo Keiran.
    _Como assim? O Que queres dizer com isto?
    _Ele quer dizer que o que quiseres diga que eu farei. Disse Keiran a Obadian.
    _Mas, com você ainda vivo como me casarei com Isilda?
    _Você jamais se casará com Isilda, seu tolo. Mas se queres tanto possuí-la peça ao rei Keiran que ele consentirá. Agora preste atenção. –Falou Lecain olhando fixamente os olhos de Obadian. Keiran agora irá obedecê-lo em tudo. Ele será apenas uma ferramenta em suas mãos, mas em segredo. O povo deve vê-lo como o rei. Ainda que seja você que governe. E nunca se esqueça, ele te obedecerá, mas vocês dois obedeceram a mim. Compreendeu?
     _SS.. s..s..sim, sim. –Respondeu meio vacilante Obadian Teron.
Você dirá que foram emboscados por Stavianathos e que graças aos seus esforços conseguiram sair vivos. Neste momento já está implantado um cenário com corpos de soldados markdenos e stavianathos em uma cena de batalha que provarão a veracidade de suas palavras. O rei Keiran irá confirmar. Agora só falta um detalhe.
     _Que detalhe? Perguntou inocentemente Obadian
     _Vocês estavam em uma batalha. Vocês sobreviverão. Mas todos sabem que você não é um espadachim tão habilidoso a ponto de sair de uma batalha sem nenhum golpe, não é mesmo? Keiran tenha a bondade de dar ao nosso amigo alguns hematomas persuasórios. 
     O que se seguiu foi uma sequencia de espancamento. Inicialmente Obadian tentou se defender, mas logo viu que “esse” Keiran era bem mais forte que o normal. Momentos depois Obadian estava estendido no chão com o corpo dolorido, cheio de hematomas e com sangue escorrendo pela boca.
     _E assim me torno rei. –Pensou.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Devoradores de homens.

Keiran Dehildren acordou cedo naquela manhã nublada. Uma fina chuva caía lá fora. Ao olhar pela janela da torre podia ver uma imensidão de telhados molhados pela chuva. Algumas copas de imensas árvores às vezes sobressaíam entre os telhados.
 Naquela parte do reino não se via as casas construídas com entalhes de madeira maciça sobreposta e cobertas com vegetação como era comum de se ver no subúrbio de Anarkden. Lavou o rosto em um recipiente de prata contendo água morna e em seguida vestiu seu gibão roxo e sua capa de veludo negro. Olhou para cama e ao ver Isilda se contorcer entre os lençóis de seda sentiu uma imensa vontade de despir-se novamente e se aconchegar entre as pernas dela. Lutando contra a tentação, saiu em silêncio fechando a porta e desceu as escadas em direção ao salão principal sem sequer dar atenção aos dois guardas que estavam parados ao lado da porta.
O salão principal era amplo e de paredes circunflexas, iluminado por tochas em vários cantos. Diante de uma imensa mesa de carvalho maciço encontrava se o general Obadian Teron onipotente com sua armadura negra e seu manto vermelho sangue. Apesar da idade, Teron se erguia com vigor juvenil. O peso de sua armadura completa não parecia incomodá-lo. Sua calvície salpicada por alguns fios de cabelos amarelos dava lhe um aspecto amargurado e severo. Diziam que outrora seus cabelos tinham sido vermelhos e volumosos. Mas aquela havia sido outra época.
_Vossa Alteza.
_Vamos logo dar cabo desse assunto general. Não quero que minha esposa acorde e queira vir conosco.
_Como quiser Vossa Alteza.
_Onde está o comandante Sinclery? Ele não virá conosco?
_Não senhor. Ele não poderá vir conosco. O marquês Éber relatou que uma de suas fazendas havia sido saqueada e seus servos haviam sido mortos. Enviei o próprio Sinclery para cuidar desse assunto e trazer os culpados à justiça. –Explicava Obadian enquanto caminhavam para o pátio.
_Fez bem general, fez bem. O marquês Éber é um homem honesto e honrado. Temos que mostrar que cuidamos de nossos bons cidadãos.

O pátio do castelo possuía uma extensão de calcário cinza que o cruzava da porta do palácio até ao portão de ferro que dava acesso a avenida principal de Anarkden. Ao redor, de ambos os lados, plantas exóticas criavam formas e desenhos coloridos em um belo jardim. As plantas exibiam suas cores vivas como nunca. Pareciam agradecidas pelas gotículas de água do chuvisco que caia teimosamente naquele dia.
Quando chegaram à rua, uma carruagem pintada de vermelha, com madeira envernizada e com o símbolo real de Keiran entalhado na porta estava aguardando. Quatro cavalos negros estavam incumbidos de puxar a carruagem. Duas lanças de soldados cuidavam da proteção do rei. Uma na frente com dez homens montados e uma atrás com nove homens. O general Teron ia junto ao rei dentro da carruagem. Logo a carruagem estava em movimento. Seria uma longa viagem e o guia estimava que eles chegassem à oitava hora do período de Álax. O céu provavelmente estaria escuro.
 Dentro da carruagem um harpista cantarolava enquanto dedilhava uma canção calma em sua harpa dourada. O rei parecia não ter interesse pela música e isto deixou o harpista com uma cara besta e um sorriso sem graça na face. Seu nome era Devany Aileeny, e era conhecida como “Devany voz das harpas”. O general Teron estava achando a música tediosa e imprópria, pois a letra falava um casal apaixonado em uma tarde iluminada, mas, como o rei parecia não se importar com a canção, permaneceu calado.
Horas mais tarde, quando a carruagem já atravessava a estrada da mata, o rei Keiran quis saber:
_Explique-me general, –Falou Keiran enquanto a carruagem seguia seu caminho. Como isto tudo ocorreu. O que realmente aconteceu aos Hildebrans?
_Meu senhor, tudo aconteceu muito rápido. Como os Stavianathos eram nossos aliados, não vimos necessidade de manter homens armados para cuidarem do corte das árvores. Foi quando um sobrevivente, o filho mais jovem dos Hildebrans veio até nós. O pequeno jovem nos relatou o massacre que sua família havia sofrido. Suas irmãs ainda estavam sendo estupradas quando ele fugiu. Infelizmente ele possuía uma ferida no abdômen e veio a falecer assim que nos relatou o ocorrido. O seu ultimo desejo foi que sua família fosse vingada. Desejo que eu e meus homens prontamente nos propusemos a realizar. 
_É realmente uma triste história, entretanto uma história difícil de acreditar. Não vejo motivos para os Stavianathos nos atacarem... Talvez o garoto tenha confundido os....
Abruptamente o rei foi interrompido por um estrondoso rugido de várias vociferações ferozes que ecoaram por toda floresta. Os soldados lutavam para controlar os cavalos que escoiceavam em pânico. Dentro da carruagem O rei estava atônito. O harpista havia deixado seu instrumento cair e estava branco como neve. Tremia e choramingava feito uma criança. Pela força do hábito, Obadian Teron levou sua mão até o cabo da espada, mas, seus olhos estavam arregalados.
_Que maldição foi essa? _ Quis saber o rei tentando falar sem tremor na voz embargada.
O general Teron sacou a espada e olhou de relance através da cortina da janela da carruagem. O rei olhou pela outra janela e viu seus soldados se reunindo ao redor da carruagem com certa dificuldade para controlar seus cavalos. Olhou mais adiante, para a floresta e viu algo aterrador. Olhos. Olhos amarelos e raivosos na floresta. Logo o arbusto começou a se mexer e os olhos apareceram em um rosto com focinho negro e uma enorme boca com mandíbulas denteadas e uma juba negra por trás desta face aterrorizante. Um corpo forte e grande se revelou. Possuía uma fina pelagem variando do vermelho amarelado ao marrom escuro e aproximadamente dois metros e dez de altura. O rosto macabro pareceu sorrir e um rugido se sobressaiu dentre os outros. A criatura avançou velozmente, munida de apenas um tacape de madeira nas mãos e logo uma dezena de criaturas semelhantes a seguiam.

O rei Keiran caiu para traz apavorado. O que se seguiu foi uma onda de gritarias, rugidos e relincho de cavalos apavorados. A carruagem balançava a cada pancada que recebia de corpos sendo jogados e despedaçados. Correu para frente da carruagem para ver porque esta não se movia e viu que os cavalos tiveram suas pernas arrancadas. O cocheiro estava caído entre eles sem a cabeça. Viu um soldado galopar para longe esperançoso, mas o mesmo foi derrubado de sua montaria por uma criatura que caíra sobre ele surgindo do alto de uma arvore. Até mesmo a montaria foi abatida por um tiro de flecha certeiro saído de um arco rustico que a criatura utilizou enquanto ainda enforcava o dono da montaria com uma cauda forte de ponta peluda. Em seguida a criatura arrancou o rosto do soldado com uma mordida que estraçalhou os ossos da face deixando uma pasta vermelha escorrer pela cabeça junto com um olho que a criatura logo pegou e mastigou como se fosse uma ameixa.
As pernas de Keiran vacilaram e ele desmontou-se no chão da carruagem. A gritaria durou cerca de cinco minutos. Mas tarde restavam apenas alguns gemidos. O harpista gritara desesperadamente no inicio, mas agora se limitava a chorar copiosamente.
Logo ouviram passos se aproximando da carruagem.
_“toc, toc ,toc.” -Imitou o bater na porta da carruagem uma voz gutural e de entonação  sarcástica. _Venham jantar conosco. Vamos, saiam. Ou preferem que nós entremos?
_SantaIévine SantaIévine SantaIévine SantaIévine SantaIévine SantaIévine SantaIévine SantaIévine..... – repetia sem para o harpista que se encontrava encostado na parede dos fundos da carruagem.
Um par de braços fortes e com mãos com garras negras e brilhantes atravessaram a parede e agarraram o harpista pela cintura e o puxou através da parede de madeira que se quebrou como se fosse gravetos. Os gritos do harpista se tornaram novamente desesperados.
_Teron se ergueu e saiu da carruagem.
_Aonde você vai? –Perguntou o rei. _Volte. Eles vão devorá-lo.
O rei Keiran se recolheu no chão da carruagem. Sua mente procurava por sua coragem, por sua bravura, mas não encontrava. Estava imobilizado de pavor.
_Então temos um acordo? Perguntou a voz gutural.
_Sim. –respondeu Teron.
_Bom. Muito bom.  Devoraremos os homens e os cavalos e ficaremos com as armas de ferro. Da mesma forma que fizemos com os outros, mas pouparemos o seu rei.
O rei Keiran que estava até então ouvindo a conversa teve coragem para sair da carruagem ao ouvir que seria poupado. Desceu os degraus da carruagem, trêmulo e quase voltou para dentro quando viu os soldados sendo devorados por um bando de criaturas que lembravam os silberianos dos quais havia ouvido falar no passado.
_O que está acontecendo Teron? Conhece esses... esses... silberianos?
_O seu rei nos ofende humano. –rugiu a criatura que estava diante do general Teron. A criatura segurava o harpista pelo braço e quando olhou para o rei Keiran arrancou o braço do harpista e começou a morder e chupá-lo os ossos como se fosse coxa assada de alguma ave. 
_Não somos silberianos humano tolo. Não somos fracos. Somos Silbetherons, ou silberons, como os ignorantes costumam dizer.
_Não importa o que sejam. –Falou o rei aflito ao ver o harpista desfalecer no chão. _Apenas me poupem como você havia dito.
_Humano tolo. Eu disse que vamos poupa-lo, sim. Mas pouparemos seu corpo. Não sua vida.
Com um golpe rápido a criatura enfiou as garras no peito de Keiran.
Keiran ainda teve tempo de ver o próprio coração pulsar na mão da criatura antes de cair sem vida.
Obadian Teron apenas desviou o olhar quando o sangue transbordou do peito vermelho do rei caído.
_Leve o seu cadáver de rei aonde quiser. E ponha a culpa em quem quiser. -Dizia a criatura enquanto acabava de mastigar o braço do harpista. _Mas não se esqueça de tua palavra humano. Iremos exigir trinta jovens humanos, toda vez que os olhos da deusa Iévine estiverem sobre vocês, como vocês costumam dizer. Mas sugiro que em vez de Iévine, quando olharem pro céu e virem as duas luas juntas, lembrem-se de meus olhos e de nosso trato. Nós preferimos a carne de fêmeas, mas esteja à vontade para escolherem seus filhotes. Apenas entreguem no local combinado, senão irei pessoalmente devorar você, sua família e todo seu povo.
Obadian Teron recolheu o corpo do rei e começou a caminhar o percurso que retornava a Anarkden. A jornada seria longa e cansativa. E Obadian Teron tinha uma história para contar.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Mensagens de Guerra

O chão estava úmido devido à chuva da noite anterior.  Havia folhas negras e apodrecidas no solo que exalavam um odor amadeirado e fétido ao mesmo tempo. Já não se ouvia os urros e gritos de bravura que os homens lançavam ao ar tão fervorosamente no inicio da jornada rumo à guerra. Já havia passado cinquenta e nove dias desde que partiram de Stavianath e os sessenta e sete mil homens já demostravam sinais de fadiga devido às intempéries da marcha através da floresta. A trilha era estreita na mata. Fazendo com que os soldados tivessem que cavalgar em filas formando uma enorme serpente humana atravessando a floresta.

Ainda estavam na metade do caminho, atravessando a floresta Delron e muitos questionavam a imprudência de escolher esta rota. Ainda teriam que atravessar a cordilheira Trulai-On e este era o maior temor dos homens. Se os Hellin-odelianos estivessem armado uma emboscada seria necessário apenas algumas centenas de bons arqueiros para tornar aquela passagem intransponível. Cron contava com uma passagem secreta por baixo das montanhas, mas as histórias que se contavam sobre os habitantes dos subterrâneos amedrontavam até mesmo os valentes. 
Todas as noites, quando os homens armavam acampamento, todos viam milhares de pequenos pares de luzes azuladas os observando. Pareciam vaga-lumes, porem permanecia imóvel entre arbustos ou em cima das arvores. Certa vez um soldado lançou uma flecha em direção a floresta onde havia várias luzes e inexplicavelmente o soldado caiu morto logo em seguida. Rapidamente uns trinta companheiros do soldado desembainharam suas espadas e adentraram a floresta gritando seus gritos de guerra. Logo se silenciaram e nenhum voltou. Quando soube da noticia, Crane enviou mais cinquenta homens floresta adentro e ao amanhecer mais cem homens foram em busca dos desaparecidos. Nenhum deles voltou. Foi Adrien que disse aos irmãos que provavelmente eram os filhos da floresta. Os elfos, e segundo dizem são pacíficos.
_Se não os atacarmos eles não nos atacarão. –Argumentou Adrien
Adrien sempre foi o mais precavido dos três. Foi ele que deixou o velho Sarkis incumbido de enviar mensagens caso ocorresse qualquer urgência no reino. O bom Sarkis havia sido um soldado valoroso em seus tempos áureos. Aposentara devido a um ferimento que sofreu na perna direita em uma batalha contra os homens do deserto. Na época do ferimento o bom homem ainda estava com seus cinquenta e cinco anos. Forte e vigoroso com seu machado de guerra, mas o ferimento o deixou manco e logo ele percebeu que não seria mais o mesmo, pois agora necessitava de uma muleta para se locomover. Desde então havia se dedicado a cuidar dos pombos mensageiros, se tornando um amigo e confidente do rei e de seus filhos.
“_Caso ocorra qualquer coisa inesperada no reino ou com meu pai me envie uma mensagem, Sarkis. Não importa quão insignificante seja.”- Ordenara-lhe Adrien no dia que partiram. Desde então, quase que semanalmente um mensageiro trazia uma mensagem a Adrien. Os pombos traziam a mensagem até uma torre situada nos limites externos da floresta e lá um dos mensageiros deixados por Adrien vinha com cavalos treinados para serem velozes até mesmo em terrenos hostis e entregavam a mensagem a Adrien. Os mesmos mensageiros às vezes também traziam mensagens das naus enviadas para fazerem o ataque marítimo a Hellin-Odel.
A frota marítima de Hellin-Odel era extremamente poderosa, mas as naus de guerra de Stavianath seria apenas uma distração para as tropas terrestres de Stavianath atacarem pelo sudeste do reino assim que eles atravessassem a cordilheira. “_Com certeza eles esperam que nosso ataque seja todo feito pelo mar” - Pensava Cron.
Cento e quinze dias após o inicio da jornada, os batedores trouxeram uma noticia que deixou Cron e Crane enraivecidos. Apenas Adrien demonstrava já está esperando por algo semelhante.
_Um exército numeroso espera por nós aos pés das montanhas. –Anunciou um batedor.
_Malditos! Lá se foi nosso ataque surpresa. Pois que assim seja. Nós os destruiremos aos pés das montanhas. –Esbravejou Cron.
_E as montanhas serão eternas testemunhas de nossa bravura! –Completou Crane enquanto os homens gritavam hurras e gritos de guerra fazendo os pássaros levantar voo dos altos das árvores.
_Devemos arquitetar um plano de ataque irmãos. –Disse Adrien sem empolgação. _Afinal de contas eles estão com a vantagem do terreno elevado ao lado deles.
Os irmãos ainda o olhavam com desprezo quando um mensageiro trouxe uma mensagem para Adrien. Aquele era realmente um dia de má noticias. Os olhos de Adrien se arregalaram e logo em seguida ele levou à mão a boca em espanto.
_Temos que voltar... Agora!
_Que loucura estas falando irmão?
_Stavianath está sendo atacada. Temos que voltar. Mataram nosso pai.
_Como assim? Quem atacou? E os markdenos? Não saíram em auxílio?
_Isto é o mais espantoso. Foram os markdenos que nos atacaram.
_Não podemos retornar assim. –Afirmou Cron pensativo. _Somos mais de sessenta mil homens em marcha em um terreno desvantajoso. Reposicionarmo-nos gastara quase um dia. E se os Hellin-odelianos souberem que estamos recuando cairão sobre nós. Estaremos em desvantagem se formos atacados pelas costas. Mesmo que o exército deles esteja em menor número.
_Mas eles estão destruindo nossas cidades, mataram nosso pai e estão destruindo nosso povo. Que soldado aqui lutará por nós sabendo que seus familiares estão sendo massacrados. –Adrien tinha lágrimas nos olhos enquanto falava.
_Irmão, Adrien tem razão. Temos que retornar, por nosso povo, por nosso pai. –Disse Crane.
_Então eu garantirei que retornem sem serem atacados pelas costas. –Afirmou convicto Cron e em seguida pronunciou o seguinte discurso:
“_Homens de Stavianath, nosso reino está sob o ataque daqueles que pensávamos serem nossos aliados. Os markdenos cometeram a maior e desonrosa traição para conosco. Mas eles pagarão. Juro que pagarão. Todavia para garantir que eles paguem temos que garantir que os Hellin-odelianos não nos ataquem enquanto retornamos ao amparo de Stavianath. Preciso de nove mil homens de coragem para eliminar ou retardar os Hellin-odelianos aos pés das montanhas. Juntem se a mim aqueles que desejam lutar ao meu lado. Haverá três homens para cada um de nós. E nós mataremos todos eles e após a vitória juntaremos aos nossos irmãos para libertarmos Stavianath. Agora eu pergunto, QUEM ESTÁ COMIGO?”
No final mais de nove mil homens queriam se juntar ao príncipe Cron. Contudo ele levou somente os nove mil. Os outros começaram o retorno a Stavianath.

Cron e os nove mil homens saíram galopando velozmente pelos campos verdejantes aos pés das montanhas rumo à batalha. Eles gritavam e cantavam canções de guerra. Cron era um bravo guerreiro e seus homens eram leais a ele. Aquela foi a ultima vez que Cron e seus homens foram vistos.